BA27 - Agriterra

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4 SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Gabriela Costa Equipa Editorial Gabriela Costa, Ángel Pérez, Alejandro de Vega, Nina Jareño Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas redacao_agriterra@interempresas.net www.agriterra.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 55 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127451 Depósito Legal 471809/20 Distribuição total +5.300 envios Distribuição digital a +4.200 profissionais. Tiragem +1.100 cópias em papel Edição Número 27 – Julho de 2026 Estatuto Editorial disponível em www.agriterra.pt/EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Media Partners: Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da Agriterra adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 5 EDITORIAL 5 Da escassez de água à inteligência artificial: vitivinicultura em debate na Conferência Técnica da Vinha 12 Península Ibérica consolida um modelo oleícola cada vez mais técnico, eficiente e interligado 20 ENERH2O: soluções integradas para a gestão de água e energia 24 EIMA 2026 amplia o espaço e aposta numa edição recorde 26 FIMAP injeta ambição tecnológica na fileira da madeira 28 Competitividade conquista-se com integração de dados e gestão sustentável 30 Entrevista com Luís Mira, secretário- -geral da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal 37 DOSSIER REGADIO E REGA SUSTENTÁVEL Desenvolvimento sustentável da fileira: mobilizar conhecimento, inovação e cooperação 40 Portugal Fresh: uma estratégia de futuro para o hortofrutícola nacional 44 BASF: uma gama eficaz no combate às principais doenças da cultura do tomate 45 Lusomorango aposta num plano ambiental para preparar os produtores para os desafios do futuro 46 Fruit Attraction 2026 prevê reunir mais de 121.000 profissionais de cerca de 150 países 50 ‘Água que Une’: da Estratégia à obra 52 Debate estratégico sobre futuro da água e do regadio reúne especialistas em novembro 56 A ilusão dos ‘rios livres’ num Alentejo em desertificação: o dogma vs. a realidade climática 58 Digitalização do regadio e governação da água marcam agenda do COTR para 2026 60 Compromisso com a eficiência hídrica: poupar água para garantir o futuro 62 A importância de colocar o proprietário em primeiro lugar 66 ISA lidera transformação tecnológica e sustentável das Ciências Agrárias 70 Entrevista com Michael Bailey, responsável global pela área de Culturas de Alto Valor da John Deere 72 BKT lança pneu para reduzir a compactação do solo em operações agrícolas pesadas 75 Ascendum coloca à prova e reforça ligação com os profissionais do setor 76 John Deere apresenta modelos atualizados de tratores 8R, 8RT e 8RX 78 Mercado de máquinas e reboques agrícolas em Portugal 81 FNA 26

5 Mercados agrícolas da UE resistem à incerteza, mas fertilizantes continuam a pressionar produtores Os mercados agrícolas da União Europeia (UE) deverão manter-se resilientes em 2026, apesar da subida dos custos da energia e dos fertilizantes, da persistência das tensões geopolíticas e da incerteza económica. Nas perspetivas de curto prazo para os mercados agrícolas, divulgadas pela Comissão Europeia, Bruxelas prevê uma produção de cereais próxima da média dos últimos cinco anos, um aumento da produção de oleaginosas e uma ligeira recuperação da produção portuguesa de azeite, num contexto em que os custos de produção continuam a condicionar a atividade agrícola. Segundo a Comissão Europeia, o contexto económico permanece marcado pela incerteza. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da UE deverá abrandar para 1,1% em 2026, enquanto a inflação deverá atingir 3,1%, impulsionada sobretudo pelos preços da energia, na sequência das tensões no Médio Oriente. A instituição alerta que um agravamento da situação geopolítica ou novos constrangimentos nas exportações energéticas e no transporte marítimo podem manter elevados os preços do petróleo e do gás, com reflexos na inflação e nos custos de produção agrícola. Os custos globais dos fatores de produção estabilizaram ao longo de 2025, mas voltaram a aumentar no primeiro trimestre deste ano. A energia registou uma subida de 5,6% e os fertilizantes de 4,2%, tendência que pode prolongar-se durante o resto de 2026. Embora a disponibilidade de fertilizantes azotados seja atualmente suficiente, a dependência europeia das importações mantém o setor vulnerável à evolução dos mercados internacionais. Ainda assim, Comissão Europeia antecipa um setor agrícola resiliente em 2027. EDITORIAL A agricultura nacional enfrenta um momento decisivo. À pressão crescente sobre os recursos hídricos e o aumento do preço dos custos de produção somam-se a necessidade de reforçar a competitividade, a adaptação às alterações climáticas, a renovação geracional, a digitalização das explorações e a criação de condições para que a tecnologia chegue efetivamente ao terreno. É neste contexto que a Agriterra apresenta uma edição centrada nos desafios e nas oportunidades que marcarão o futuro do setor. A Feira Nacional de Agricultura voltou a afirmar-se como o principal ponto de encontro dos profissionais da fileira e, nesta edição, ouvimos o secretário-geral da CAP, numa entrevista em que analisa as prioridades da produção agrícola, das políticas públicas à competitividade das explorações, passando pelo papel determinante da inovação e do investimento. A não perder. A reportagem dedicada aos expositores da FNA 26 mostra, por sua vez, um setor dinâmico, onde empresas e produtores apresentam soluções tecnológicas, equipamentos e serviços orientados para uma agricultura mais eficiente e sustentável. Em paralelo, a Conferência Técnica da Vinha, organizada pela Agriterra, reuniu especialistas para debater temas incontornáveis, da gestão da escassez de água à inteligência artificial, evidenciando que a vitivinicultura do futuro dependerá da capacidade de integrar conhecimento, tecnologia e sustentabilidade. Ainda neste último número antes das férias, o dossier ‘Regadio e Rega Sustentável’ aprofunda uma das questões mais estratégicas para a agricultura portuguesa. Da modernização das infraestruturas à eficiência na utilização da água, passando pelas novas tecnologias de rega, pela digitalização e pela gestão inteligente dos recursos, os artigos que preparámos para o leitor demonstram que produzir mais com menos água deixou de ser um objetivo para se tornar uma exigência. Em destaque, o artigo assinado pelo presidente da FENAREG, que enquadra os desafios do regadio nacional e sublinha a sua importância para a segurança alimentar, a coesão territorial e a adaptação às alterações climáticas. Nesta edição leia ainda um dossier dedicado ao ‘Mercado Hortofrutícola’, onde são analisadas as principais tendências de produção, exportação e inovação. Entre os vários contributos, é de assinalar a análise da secretária-geral do COTHN, que oferece uma leitura aprofundada da evolução do setor, reforçando a necessidade de apostar na diferenciação, na eficiência e na criação de valor ao longo de toda a cadeia. Boas férias e boa leitura. O tempo das decisões na agricultura portuguesa

6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.AGRITERRA.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Ministro da Agricultura quer reforçar armazenamento e disponibilidade de água O ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, defendeu a 13 de julho, em Bruxelas, uma gestão da água assente na poupança, no aumento da capacidade de armazenamento e num melhor aproveitamento das infraestruturas existentes. À margem do Conselho de ministros da Agricultura e Pescas da União Europeia (UE), o Governante afirmou que a gestão deste recurso deve responder às necessidades do consumo humano, da agricultura, da indústria e da proteção civil. Neste contexto, considerou essencial reter mais água para que possa ser utilizada quando necessário, em vez de se perder para o mar, admitindo também o recurso a redes interligadas para melhorar a sua distribuição. De acordo com a Lusa, José Manuel Fernandes destacou ainda que estão em execução projetos de investimento na agricultura superiores a 600 milhões de euros. No entanto, referiu que algumas barragens dispõem de água que poderia ser utilizada na agricultura sem que isso aconteça. Kioti dá novo passo na sustentabilidade com aprovação do combustível HVO A Kioti Europe anunciou que os seus motores diesel estão oficialmente aprovados para funcionar com combustível HVO (Hydrotreated Vegetable Oil — óleo vegetal hidrotratado). Esta aprovação permite aos clientes reduzir o impacto ambiental dos seus equipamentos sem comprometer o desempenho ou a fiabilidade. A Ascendum Agro, importador oficial da kioti, sublinha a relevância desta aprovação para o mercado nacional. Toda a gama Kioti com motorização diesel pode agora operar sem qualquer limitação com este combustível de origem não fóssil. O HVO100 (100% puro) é produzido a partir de matérias-primas renováveis e contribui para uma melhoria significativa do balanço global de CO2, comparativamente ao diesel fóssil. Este combustível cumpre a norma europeia EN 15940 e pode ser utilizado diretamente, sem necessidade de qualquer modificação técnica nos motores Kioti existentes. Além disso, pode ser misturado livremente com o diesel convencional, oferecendo flexibilidade na gestão de combustível e nas estratégias de transição. Em comunicado, a Ascendum Agro defende que “o desempenho continua a ser um ponto forte fundamental”, explicando que “graças à tecnologia de injeção Common-Rail presente nos equipamentos Kioti, a ligeiramente menor densidade energética do HVO é eficazmente compensada em condições reais de utilização”. Com esta aprovação, a Kioti dá continuidade ao seu compromisso de fornecer soluções práticas e voltadas para o futuro que apoiam operações mais sustentáveis, mantendo simultaneamente a durabilidade e o desempenho da tecnologia a diesel comprovada.

7 Eurodeputados aprovam medidas para reduzir impacto da subida dos preços dos adubos O Parlamento Europeu aprovou medidas destinadas a minimizar o impacto da subida dos preços dos adubos nos agricultores da União Europeia (UE), acelerando alterações à Política Agrícola Comum (PAC). A decisão pretende assegurar que o apoio chegue atempadamente, permitindo aos produtores adquirir os adubos necessários para a próxima estação vegetativa. As alterações, propostas pela Comissão Europeia, preveem a atribuição de apoio à liquidez que pode cobrir até 80% dos custos adicionais suportados pelos agricultores com a compra de adubos. Segundo o Parlamento Europeu, o objetivo é evitar uma redução da produção agrícola, preservar a qualidade dos alimentos e limitar o impacto da subida dos custos nos preços pagos pelos consumidores. As novas regras permitem igualmente aos Estados-Membros aumentar os adiantamentos dos pagamentos diretos da Política Agrícola Comum de 70% para 75%. Além disso, os agricultores podem receber esses pagamentos logo após a apresentação do respetivo pedido, deixando de ter de aguardar pela data atualmente prevista nas regras em vigor, 16 de outubro. Outra das medidas aprovadas confere aos Estados-Membros maior flexibilidade para ajustarem os orçamentos destinados aos pagamentos diretos no próximo ano.

8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.AGRITERRA.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Fertiprado investe em nova unidade de produção em Elvas A Fertiprado está a construir uma nova unidade de produção em Elvas. Este investimento estratégico permitirá aumentar a capacidade produtiva e reforçar a resposta da empresa à crescente procura do mercado, garantindo maior eficiência e disponibilidade de produto. A nova fábrica da empresa portuguesa de referência no desenvolvimento de sementes e misturas biodiversas será equipada com os mais recentes sistemas de inoculação e peletização, elevando o nível tecnológico da produção e abrindo caminho à colocação no mercado de sementes inoculadas com novas soluções de valor acrescentado. Entre as tecnologias previstas destacam-se formulações e aplicações que podem integrar bioestimulantes, fitoprotectores, microrganismos fixadores de azoto, solubilizadores de fósforo e promotores do desenvolvimento radicular, entre outros componentes orientados para a melhoria do desempenho agronómico. A operação foi apoiada pelo Compete 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Navigator recebe classificação máxima ‘A’ do CDP em ação climática A The Navigator Company foi distinguida pelo CDP com a classificação ‘A’ no Supplier Engagement Assessment (SEA) 2025, avaliação que reconhece o desempenho das empresas no envolvimento da sua cadeia de abastecimento em matéria de sustentabilidade. Este resultado evidencia a capacidade da empresa de estender à cadeia de valor a sua abordagem à ação climática, envolvendo fornecedores, produtores e parceiros. A avaliação SEA avaliação integra aspetos como o envolvimento de fornecedores, a gestão de riscos climáticos, a monitorização das emissões de Scope 3 (indiretas) e a definição de metas de redução alinhadas com a transição para uma economia de baixo carbono. O reconhecimento junta-se às classificações máximas ‘A’ - nível Leadership - alcançadas pela Navigator nos questionários CDP Climate Change e CDP Forests, reforçando a consistência do seu desempenho em descarbonização, gestão sustentável da floresta e transparência ambiental. ‘Melhor projeto de jovem agricultor’ distingue Bernardo Vieira e Brito A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) anunciou na Feira Nacional de Agricultura (FNA), em Santarém, o vencedor do prémio ‘Melhor Projeto de Jovem Agricultor 2026’: Bernardo Vieira e Brito. A visão integrada e a sustentabilidade do projeto, que inclui três hectares de vinha DOC vinho verde, oito hectares de kiwi biológico (das variedades verde e amarela), dois aviários de produção biológica e produções complementares, como milho, limões e mel, garantiram a distinção. O projeto distinguido no Concurso Nacional de Jovens Agricultores destaca-se pela abordagem empresarial, diversidade e aposta na economia circular. Assente numa estratégia de produção de várias culturas e diferentes atividades agrícolas, o modelo de gestão assenta na maximização e reutilização de recursos dentro da exploração. O projeto aposta ainda na incorporação de tecnologias e boas práticas, incluindo inteligência artificial, energia verde e gestão estratégica da rega.

A INOVAÇÃO QUE CULTIVA O FUTURO

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 12 DA ESCASSEZ DE ÁGUA À INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: VITIVINICULTURA EM DEBATE NA CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA Num momento em que a vitivinicultura portuguesa enfrenta desafios cada vez mais complexos – da escassez de água à pressão das alterações climáticas, sem esquecer a necessidade de produzir de forma mais eficiente e sustentável – a Península de Setúbal acolheu, a 19 de maio, um encontro dedicado à competitividade e resiliência como fatores estratégicos para o futuro da vinha. Marta Clemente Organizada pela Revista Agriterra, a Conferência Técnica da Vinha 2026 reuniu quase uma centena de profissionais do setor, entre produtores, técnicos, investigadores, empresas e representantes de entidades públicas, para uma manhã de debate em torno das transformações que estão a marcar a atividade vitivinícola. Sob o mote ‘Tecnologia, clima e sustentabilidade na vitivinicultura do futuro’, o evento decorreu no Auditório Nobre da Escola Superior de Ciências Empresariais (ESCE) do Instituto Francisco Toscano Rico, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), representou o ministro da agricultura na sessão de abertura da Conferência Técnica da Vinha 2026.

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 13 Politécnico de Setúbal e destacou- -se pela diversidade de perspetivas reunidas em palco. Da investigação científica à experiência de campo, passando pelas novas soluções tecnológicas e pelas exigências regulatórias, a conferência promoveu uma reflexão alargada sobre os caminhos que poderão reforçar a competitividade e a resiliência das explorações vitícolas nos próximos anos. A iniciativa contou ainda com a parceria estratégica de algumas das principais entidades ligadas à investigação, ao conhecimento e ao desenvolvimento do setor, entre as quais o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), o Instituto Superior de Agronomia (ISA), o Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR) e o Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food (LEAF). O Crédito Agrícola e a CarmoFarm apoiaram o encontro como patrocinadores premium, juntando-se à Biostasia e à Consulai (patrocinadores) e à colaboração da Fertiberia Tech – ADP Fertilizantes. DA “TEMPESTADE PERFEITA” AO “MAR DE OPORTUNIDADES” A sessão de abertura ficou marcada por uma mensagem transversal aos diferentes intervenientes: a vitivinicultura atravessa um período de mudança profunda, mas também de oportunidades para quem conseguir adaptar-se aos novos desafios. Coube a Gabriela Costa, diretora da Revista Agriterra, sublinhar a relevância do momento para um setor confrontado com as alterações climáticas, o aumento dos custos de produção, a escassez de recursos e a crescente pressão dos mercados. “Produzir uvas e vinho de qualidade, assegurando sustentabilidade ambiental e eficiência produtiva, é hoje um desafio central”, afirmou. Em representação do ministro da Agricultura e Mar, o presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), Francisco Toscano Rico, traçou um retrato exigente da conjuntura que o setor enfrenta a nível internacional. Referindo-se aos debates recentes da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), descreveu o atual contexto como uma possível “tempestade perfeita”, marcada pela descida do consumo e das exportações em vários mercados. Ainda assim, defendeu uma visão otimista, considerando que existem condições para transformar as dificuldades em oportunidades. Uma das questões que destacou foi a alteração dos hábitos de consumo, sobretudo entre as gerações mais jovens. Recordando uma recente deslocação a França, observou que era o único cliente de uma esplanada a consumir vinho, um episódio que utilizou para ilustrar a necessidade de o setor repensar a forma como comunica com os consumidores. “Temos de refletir sobre a forma como estamos a comunicar o vinho.”. Ao longo da sua intervenção, Francisco Toscano Rico insistiu na ideia de que a competitividade da fileira começa Uma plateia de produtores, técnicos, investigadores, empresas e representantes de entidades do setor assistiu ao debate sobre os desafios e oportunidades da vitivinicultura.

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 14 na vinha. “Não há competitividade da fileira sem competitividade da vinha”, declarou, defendendo uma maior aposta na digitalização, na agricultura de precisão, na capacitação dos produtores e na disponibilização de informação de mercado mais detalhada. O responsável anunciou ainda a intenção de reforçar a recolha e divulgação de dados económicos e produtivos, de forma a apoiar tanto as políticas públicas como as decisões empresariais. Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), assinalou igualmente a importância crescente da sustentabilidade para o futuro da atividade. Recordando o percurso da região na adoção de práticas de proteção e produção integrada, salientou que temas como a gestão da água e a adaptação às condições climáticas assumem hoje um caráter decisivo para a viticultura. Na sua perspetiva, a realização da conferência na Península de Setúbal surge num momento particularmente oportuno para discutir respostas concretas aos desafios que se colocam ao setor. MAIS CALOR, MENOS ÁGUA E CUSTOS CRESCENTES A primeira intervenção técnica da conferência esteve a cargo de José Silvestre, investigador do INIAV, que apresentou uma análise dos desafios que a viticultura enfrenta num contexto marcado pelas alterações climáticas, pela pressão económica e pela rápida evolução tecnológica. Partindo da ideia, anteriormente referida por Francisco Toscano Rico, de que o setor atravessa uma espécie de “tempestade perfeita”, o investigador explicou que a vinha está hoje sujeita a várias pressões em simultâneo: um clima mais quente e seco, custos de produção crescentes e mercados em transformação. Perante este cenário, defendeu uma mudança de paradigma na gestão das explorações. “A forma como decidimos é cada vez mais importante, tão importante quanto aquilo que decidimos”, salientou. Na componente económica, evidenciou o aumento dos custos da energia, dos fertilizantes e dos fitofármacos, bem como a crescente dificuldade em assegurar mão de obra. A resposta, considerou, passa por uma maior eficiência operacional, apoiada pela mecanização, automação, robótica e ferramentas de apoio à decisão. A análise climática ocupou o centro da apresentação. Com base em dados da Península de Setúbal, José Silvestre mostrou que a temperatura média durante o ciclo vegetativo aumentou cerca de 1,5°C nas últimas décadas, enquanto aumentou o número de dias acima dos 35°C e se agravaram os indicadores de secura. Segundo o investigador, a região passou, desde o início deste século, de um clima seco para muito seco. Paralelamente, a precipitação durante o ciclo vegetativo tem diminuído, enquanto a evapotranspiração continua a aumentar, elevando as necessidades de rega e a pressão sobre os recursos hídricos. As consequências refletem-se em maturações mais precoces, redução da acidez, aumento do potencial alcoólico e maior dificuldade em definir o momento ideal da vindima. A frequência crescente de ondas de calor e outros eventos extremos constitui outro fator de preocupação para a qualidade da uva e a estabilidade da produção. Perante esta realidade, José Silvestre advogou uma adaptação assente em práticas agronómicas ajustadas às novas condições climáticas, na valorização da diversidade genética e na adoção de tecnologias de precisão. Realçou, por outro lado, o desenvolvimento de sensores, monitorização por satélite e drone, sistemas de apoio à decisão e aplicações de machine learning para apoiar a gestão da rega, a monitorização nutricional e a previsão de pragas e doenças. Entre os exemplos apresentados, referiu modelos preditivos para estimar o estado hídrico da vinha e a criação, pelo INIAV, de uma rede nacional de armadilhas inteligentes para monitorização de pragas. Só na vinha deverão ser instaladas este ano cerca de 800 armadilhas inteligentes em várias regiões do país. Apesar do potencial destas ferramentas, alertou para limitações como os custos de implementação, a falta de interoperabilidade entre plataformas e a necessidade de validação em condições reais de campo. Não obstante, deixou uma mensagem clara: o futuro José Silvestre, investigador auxiliar do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), foi o keynote speaker do evento.

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 15 da viticultura dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados em decisões. “A tecnologia só é útil quando cria valor e melhora a nossa capacidade de decisão”, rematou. PRODUZIR MELHOR COM MENOS: A SUSTENTABILIDADE COMO FATOR DE COMPETITIVIDADE A primeira mesa-redonda da conferência colocou a sustentabilidade no centro da discussão, numa conversa moderada por Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), que reuniu um grupo de oradores composto por Joaquim Miguel Costa, professor e investigador do Instituto Superior de Agronomia (ISA), Gonçalo Morais Tristão, diretor da Federação Nacional de Regantes de Portugal (FENAREG), Carlos Gabirro, CEO da Biostasia, e Filipa Saldanha, diretora de Sustentabilidade do Crédito Agrícola. Apesar das diferentes perspetivas representadas no painel, houve uma ideia que atravessou toda a discussão: a sustentabilidade deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se afirmar como uma condição essencial para a viabilidade económica das explorações vitícolas. Para Joaquim Miguel Costa, a crescente digitalização da agricultura só vai produzir resultados se for acompanhada por um conhecimento sólido da planta e do solo. O investigador notou que a recolha de dados, por si só, não resolve os problemas. “É preciso perceber a planta e perceber o solo”, disse, defendendo que a sensorização e a monitorização só têm valor quando os dados são corretamente interpretados. O especialista destacou, por isso, a importância da inventariação de consumos e recursos, considerando que sem métricas fiáveis não é possível melhorar a eficiência nem tomar decisões fundamentadas. “Se não houver essas métricas, não se pode gerir”, resumiu. A gestão da água dominou igualmente parte significativa do debate. Gonçalo Morais Tristão sustentou que o principal desafio nacional não está na falta de recursos hídricos, mas na sua gestão. “Portugal não tem falta de recursos hídricos”, assegurou peremtoriamente, sublinhando que o país retém apenas uma pequena parte da água que aflui às suas bacias hidrográficas. Para o responsável da FENAREG, aumentar a capacidade de armazenamento, modernizar infraestruturas e investir em eficiência são passos fundamentais para garantir a sustentabilidade futura da agricultura. Frisou ainda a importância da estratégia ‘Água que Une’ e da utilização de dados transparentes para apoiar decisões políticas e empresariais mais eficazes. Do lado empresarial, Carlos Gabirro centrou a sua intervenção na produção com resíduos zero e na evolução das exigências dos consumidores. Segundo o CEO da Biostasia, práticas mais sustentáveis já não são uma tendência de nicho, mas uma exigência crescente do mercado. Defendeu ser possível produzir de forma mais sustentável sem comprometer a rentabilidade, recorrendo a novas tecnologias e a abordagens agronómicas inovadoras. “É possível aumentar a produtividade e reduzir custos”, garantiu, e acrescentou também que a transição exige sobretudo uma mudança de mentalidade por parte dos produtores. A perspetiva financeira foi apresentada por Filipa Saldanha, que frisou o papel da banca no apoio à adaptação do setor agrícola às alterações climáticas. A responsável do Crédito Agrícola explicou que a instituição tem vindo a desenvolver soluções de financiamento orientadas para investimentos em eficiência hídrica, agricultura de precisão e práticas regenerativas, mas advertiu que o acesso ao financiamento vai depender, cada vez mais, da capacidade das empresas demonstrarem a sua preparação para os riscos climáticos. “Precisamos de dados granulares para proteger os nossos clientes e os nossos ativos”. Na sua visão, a recolha e gestão de informação sobre adaptação climática vão ser determinantes não apenas para melhorar a resiliência das explorações, mas também para facilitar o acesso ao crédito num contexto regulatório cada vez mais exigente. Do debate sobre tecnologia, financiamento e eficiência produtiva resultou uma mensagem clara do painel: a susA primeira mesa redonda foi dedicada ao tema ‘Produzir melhor com menos: sustentabilidade e eficiência na vitivinicultura’.

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 16 tentabilidade na vitivinicultura depende cada vez mais da capacidade de medir, conhecer e gerir melhor os recursos disponíveis. DA MADEIRA AOS SISTEMAS DE SUPORTE: INOVAÇÃO AO SERVIÇO DA VITICULTURA Tiago Cardoso, responsável comercial da CarmoFarm para Portugal, deu a conhecer as soluções desenvolvidas pela empresa para responder às necessidades atuais da viticultura, desde as estruturas de suporte, até aos serviços de instalação. Com mais de 40 anos de experiência na transformação e tratamento de madeira, a empresa opera duas unidades industriais em Portugal e exporta para mais de 50 países, sendo as exportações responsáveis por mais de metade da sua faturação. Na vinha, a oferta passa por postes de madeira e metálicos para cabeceiras e estruturas intermédias, tutores, arames, acessórios e serviços de montagem ‘chave na mão’. Segundo Tiago Cardoso, o objetivo passa por disponibilizar soluções que aliem durabilidade, produtividade e sustentabilidade. No caso dos postes de madeira, destacou a utilização de matéria-prima de elevada qualidade e processos de tratamento que permitem oferecer garantias até 20 anos. Já nos postes metálicos, salientou a diversidade de perfis e materiais disponíveis, incluindo aço corten, cada vez mais procurado em projetos ligados ao enoturismo, e soluções concebidas para ambientes mais exigentes, como as vinhas localizadas junto à costa marítima. A escassez e o custo da mão de obra foram, do mesmo modo, identificados como constragimentos que têm orientado o desenvolvimento de novos produtos. Em parceria com fabricantes especializados, a CarmoFarm tem apostado em acessórios que simplificam a instalação, manutenção e gestão das vinhas. O responsável apontou como exemplo equipamentos que permitem a uma única pessoa realizar operações que tradicionalmente exigiam mais trabalhadores. A apresentação terminou com a referência ao serviço de instalação disponibilizado pela empresa, assegurado por equipas próprias e por uma rede de parceiros especializados, capaz de dar resposta a projetos em diferentes regiões agrícolas de Portugal e no estrangeiro. PROJETOS EUROPEUS E PRÁTICAS REGENERATIVAS GANHAM ESPAÇO NA VITICULTURA A redução do uso de pesticidas foi o foco principal da apresentação do projeto europeu AdvisoryNetPEST, financiado pelo programa Horizon Europe e apresentado por Francisca Viveiros, da Consulai. A iniciativa pretende criar uma rede de técnicos de Tiago Cardoso apresentou as soluções inovadoras para o setor vitivinícola da CarmoFarm. O projeto europeu AdvisoryNetPEST esteve no centro da apresentação da Consulai.

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 17 aconselhamento agrícola em toda a União Europeia para identificar, testar e divulgar práticas capazes de reduzir o risco e a utilização de produtos fitofarmacêuticos. Segundo a responsável, o objetivo é selecionar e disseminar abordagens já testadas em contexto real, mas ainda longe de uma adoção generalizada, facilitando a sua replicação noutros territórios e sistemas produtivos. A vertente prática da sessão foi assegurada por Luís Constantino, responsável de viticultura da Herdade dos Grous, que apresentou um caso de estudo assente na integração de ovinos na gestão das vinhas em modo de produção biológico. Numa exploração localizada no Baixo Alentejo, com 123 hectares de vinha e solos pobres em matéria orgânica, a estratégia surgiu como alternativa ao controlo mecânico do coberto vegetal e enquadra-se numa abordagem de agricultura regenerativa. “Temos que aprender um bocadinho com aquilo que já foi feito”, disse o técnico, resumindo uma filosofia que combina conhecimento tradicional com novas formas de gestão. Atualmente, cerca de duas mil ovelhas são utilizadas para gerir a biomassa produzida nas culturas permanentes, promovendo simultaneamente a ciclagem de nutrientes e a melhoria da fertilidade do solo. Os resultados preliminares apontam para benefícios agronómicos e ambientais relevantes. Entre novembro e fevereiro, a exploração deixou de realizar três passagens anuais de maquinaria para controlo do coberto vegetal, o que representa uma redução estimada de cerca de 3.500 litros de gasóleo e de nove toneladas de emissões de CO₂. Paralelamente, registou-se um aumento de 0,5% do teor de matéria orgânica em várias parcelas ao longo dos últimos três anos, contribuindo para melhorar a retenção de água e a atividade biológica do solo. Apesar dos resultados encorajadores, Luís Constantino salientou que o modelo exige acompanhamento permanente, coordenação logística e adaptação contínua às condições de cada campanha. “Não é só pôr lá as ovelhas e esquecermo-nos delas”, referiu, defendendo que a observação e a flexibilidade são determinantes para o sucesso deste tipo de abordagem. FOCO EM SOLUÇÕES BIOLÓGICAS E REDUÇÃO DE QUÍMICOS NA PROTEÇÃO DA VINHA Para encerrar o ciclo de apresentações técnicas, Marisa Morgado Saias, da Biostasia, considerou que a produção agrícola sem químicos deve ser encarada não como uma restrição, mas como um sistema de produção completo, capaz de conciliar produtividade, rentabilidade e sustentabilidade. A responsável enquadrou esta evolução num contexto de crescente exigência regulamentar e de mercado, referindo que “o consumidor se preocupa cada vez mais com aquilo que recebe no seu prato” e que a agricultura está a ser progressivamente conduzida para soluções mais ecológicas. Com mais de 15 anos de atividade na área do controlo biológico, a empresa desenvolve soluções assentes na regeneração dos solos, na nutrição orgânica e na proteção biológica das culturas. Segundo a oradora, a abordagem passa por trabalhar “desde o início da produção até garantir que o fruto chegue ao prato”, recorrendo a produtos de origem natural e estratégias adaptadas a cada exploração. Na vinha, a empresa concentra a sua atuação na regeneração biológica, na nutrição orgânica e em soluções naturais que reforçam a resiliência das plantas perante diferentes fatores de stress. “Não há uma solução ótima. Há a capacidade de adequar a cada momento”, sublinhou Marisa Morgado Saias, reforçando a importância de ajustar as recomendações às condições específicas de cada cultura. A responsável apresentou ainda o caso de uma vinha conduzida ao longo de uma campanha exclusivamente com soluções ecológicas, afirmando que foi possível obter produção e qualidade sem recorrer a químicos. Segundo os A Biostasia defendeu as vantagens da produção e fertilização em modo ecológico. "A competitividade da fileira começa na vinha" - Francisco Toscano Rico

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 18 dados partilhados, os custos mantiveram-se alinhados com os sistemas convencionais, contrariando a perceção de que a produção em modo ecológico implica necessariamente maiores encargos. Entre as novidades da empresa está a introdução de serviços com drones para monitorização, fertilização e aplicação de produtos naturais. A PONTE ENTRE INVESTIGAÇÃO E PRÁTICA VITÍCOLA A conferência terminou com uma mesa-redonda que veio refletir sobre o papel da inovação tecnológica e digital na competitividade da vitivinicultura. Sob o mote ‘Inovação tecnológica e digital como motor da competitividade na vitivinicultura’, o debate foi moderado por Gonçalo Morais Tristão, presidente da Direção | COTR - Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio, Centro de Competências para o Regadio Nacional. Da diversidade de visões colocadas em discussão, emergiu uma conclusão comum: a tecnologia é hoje uma ferramenta indispensável para responder aos desafios económicos, ambientais e produtivos que o setor enfrenta. Gonçalo Rodrigues, professor auxiliar do Instituto Superior de Agronomia, sublinhou que a viticultura tem de encontrar formas de produzir mais e melhor num contexto marcado pelo aumento dos custos de produção, da energia, dos fertilizantes e da pressão climática. Nesse sentido, considerou que o principal desafio já não é a existência de tecnologia, mas a sua disseminação junto de uma realidade agrícola muito heterogénea. “Temos de desmistificar que a tecnologia é um problema”, declarou, apelando depois a uma maior aproximação entre a academia e os produtores. Nesse sentido, o docente alertou para o que considera ser um afastamento crescente entre o conhecimento produzido nos centros de investigação e a sua aplicação prática no terreno. Na sua opinião, é necessário reforçar os mecanismos de transferência de conhecimento, melhorar a comunicação e recolher mais contributos dos agricultores para compreender as dificuldades reais de adoção das novas ferramentas. “Precisamos de conhecer as dificuldades de quem trabalha com estas questões no terreno”, salientou. Também Rui Costa Martins, investigador sénior do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), ressaltou a importância de tornar a tecnologia mais compreensível e útil para os produtores. Segundo explicou, muitas das soluções atualmente disponíveis fornecem indicadores e dados, mas nem sempre conseguem explicar de forma clara a relação entre esses dados e a fisiologia da planta. O caminho, defendeu, passa por desenvolver sistemas capazes de apoiar decisões mais precisas e fundamentadas, permitindo intervenções antecipadas e ajustadas às necessidades reais da cultura. Na sua intervenção, Rui Costa Martins rejeitou a ideia de uma agricultura totalmente automatizada e sem intervenção humana. Em vez disso, apontou para um futuro assente em ferramentas que ajudem a compreender melhor o A segunda mesa redonda centrou-se no tema ‘Inovação tecnológica e digital como motor da competitividade na vitivinicultura’.

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 19 comportamento das videiras e a otimizar a sua resposta perante fatores como o défice hídrico, as temperaturas extremas ou outras situações de stress. “A tecnologia deixa de ser um custo e passa a ser um fator ultracompetitivo”, afirmou Rui Costa Martins. Do lado dos produtores, Miguel Cachão, técnico da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE), partilhou a experiência da associação na introdução de tecnologias de monitorização e recolha de dados junto dos viticultores da região. O responsável reconheceu que os custos e a complexidade de algumas soluções continuam a ser obstáculos, sobretudo para os produtores de menor dimensão. De qualquer modo, defendeu que a demonstração prática dos benefícios continua a ser a forma mais eficaz de promover a adoção destas ferramentas. A questão do financiamento marcou igualmente o debate. Os participantes consideraram que os apoios públicos vão continuar a ser determinantes para acelerar a modernização tecnológica das explorações, sobretudo num contexto de margens cada vez mais reduzidas. Para Miguel Cachão, a ação das associações pode desempenhar um papel decisivo ao facilitar o acesso dos pequenos produtores a serviços e tecnologias que, individualmente, seriam mais difíceis de implementar. Paralelamente às sessões técnicas, os momentos de networking permitiram estreitar contactos entre produtores, fornecedores, investigadores e restantes agentes da fileira, reforçando a componente prática e colaborativa da conferência. n A Conferência Técnica da Vinha 2026: ‘Tecnologia, clima e sustentabilidade na vitivinicultura do futuro’ é dinamizada no âmbito dos Encontros Profissionais B2B da Induglobal, do Grupo Interempresas, com o suporte técnico da Fakoy. "O futuro da viticultura dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados em decisões" - José Silvestre

20 II CONGRESSO IBÉRICO DE OLEICULTURA Península Ibérica consolida um modelo oleícola cada vez mais técnico, eficiente e interligado O II Congresso Ibérico de Oleicultura apresentou conclusões estratégicas fundamentais orientadas para a transformação e a competitividade do setor na Península Ibérica. O debate centrou-se na otimização dos lagares, na sustentabilidade económica e no capital humano. Vilcon / Interempresas Beja acolheu a segunda edição do Congresso Ibérico de Oleicultura 2026, um evento organizado pela Interempresas e pela Vilcon que reuniu cerca de 250 profissionais do setor provenientes de Espanha e de Portugal, consolidando-se como um dos principais fóruns técnicos e estratégicos da oleicultura ibérica. Ao longo de todo o encontro, ficou patente o excelente momento que atravessa o setor oleícola moderno na Península Ibérica, especialmente em regiões como o Alentejo, cuja evolução produtiva, tecnológica e empresarial continua a despertar um enorme interesse entre produtores, indústrias e empresas fornecedoras de tecnologia e serviços. O edifício Nerbe/Aebal registou lotação esgotada.

21 II CONGRESSO IBÉRICO DE OLEICULTURA Um dos aspetos mais valorizados pelos participantes e patrocinadores foi a elevada qualidade profissional do networking gerado tanto no jantar- -cocktail realizado na noite anterior como durante os diversos espaços de encontro desenvolvidos ao longo do congresso. Os patrocinadores coincidiram ao destacar o elevado nível técnico dos participantes, a proximidade profissional e a utilidade real dos contactos gerados num ambiente altamente especializado. Da mesma forma, os participantes demonstraram uma satisfação notável com o conteúdo das mesas redondas e com o profissionalismo das intervenções. O formato dinâmico, o elevado nível técnico dos oradores e a orientação prática das diferentes apresentações permitiram criar um ambiente de aprendizagem especialmente enriquecedor para todos os perfis presentes: agricultores, técnicos, industriais, fornecedores de tecnologia e responsáveis pela gestão. O programa do congresso girou em torno de alguns dos principais desafios e oportunidades que o setor oleícola ibérico enfrenta atualmente. Ao longo das diferentes mesas redondas, foram abordadas questões relacionadas com a modernização do olival, a eficiência produtiva, a gestão agronómica, a sustentabilidade, a digitalização, a automatização industrial e a adaptação do lagar a um ambiente cada vez mais profissionalizado e exigente. A definição do lagar como centro de geração de rendimento: design, inovação e eficiência. As intervenções relacionadas com o desenvolvimento do olival moderno suscitaram um interesse especial entre os participantes. Foram analisadas as mudanças estruturais que a produção oleícola está a atravessar, especialmente em zonas de nova implantação e elevada profissionalização, como o Alentejo, onde a combinação de disponibilidade hídrica, dimensão empresarial e aplicação intensiva de tecnologia permitiu desenvolver um dos modelos oleícolas mais competitivos do mundo. Os participantes contribuíram com uma visão altamente especializada a partir das suas respetivas áreas de conhecimento. As intervenções relacionadas com a genética vegetal, o desenho das plantações, o manejo da cultura, a irrigação, a fertilização e a proteção Os participantes desfrutaram de um amplo espaço para networking de alto nível. Mesa redonda ‘A definição do lagar como centro de geração de rendimento: design, inovação e eficiência’, moderada por Juan Vilar Hernández, CEO e fundador da Juan Vilar Consultores Estratégicos.

22 II CONGRESSO IBÉRICO DE OLEICULTURA vegetal permitiram aprofundar a forma como a eficiência agronómica se tornou um dos pilares fundamentais da rentabilidade futura do olival. O lagar de grande escala e a valorização de subprodutos como novas alternativas de otimização económica. Igualmente relevantes foram as contribuições relacionadas com a transformação industrial e a gestão do lagar. Os especialistas salientaram a crescente necessidade de monitorizar e medir todos os processos ligados à extração e elaboração do azeite, bem como a importância de combinar tecnologia, experiência e capacidade de tomada de decisões em tempo real para maximizar a qualidade e a rentabilidade. Digitalização e automatização industrial. Estas mesas redondas revelaram também a profunda evolução que o setor está a atravessar. Sensores, inteligência artificial, análise de dados e automatização de processos deixaram de ser apresentados como ferramentas do futuro para se tornarem elementos já plenamente integrados em muitas explorações e lagares de referência. Mercado e comercialização. Foi colocado em cima da mesa outro dos grandes desafios atuais: a necessidade de adaptar o modelo comercial a um cenário caracterizado por uma maior escala produtiva, concorrência internacional crescente e consumidores cada vez mais exigentes. Neste sentido, foram analisadas novas estratégias comerciais, tendências de consumo e fórmulas de diferenciação capazes de conferir maior estabilidade e rentabilidade ao setor. Sustentabilidade e valorização de subprodutos. Os participantes concordaram em salientar que o futuro do setor passa não só por produzir de forma mais eficiente, mas também por gerar valor acrescentado a partir da biomassa, dos bagaços, dos subprodutos e de novos modelos de aproveitamento energético. Mesa redonda ‘A exigência que a especificidade dos novos lagares impõe à formação e experiência da sua equipa’, moderada por Gonçalo Moreira, gestor de projetos da Olivum e gestor do Programa de Sustentabilidade do Azeite. Mesa redonda ‘A incidência do modo de cultivo: produtividade, colheita, natureza do fruto, na conceção e escala do lagar’, moderada por Pedro Martínez, CEO da IMS. Mesa redonda ‘O lagar de escala e a valorização de subprodutos como novas alternativas de otimização económica’, moderada por Rubén Garzón, CEO da Garzón Green Energy e agricultor.

23 II CONGRESSO IBÉRICO DE OLEICULTURA O Congresso Ibérico de Oleicultura 2026 voltou também a evidenciar a crescente integração entre Espanha e Portugal como grande plataforma oleícola global. A complementaridade entre a Andaluzia, a Extremadura e o Alentejo, aliada à profissionalização do setor e à forte incorporação tecnológica, está a permitir construir um espaço produtivo cada vez mais competitivo e com maior peso estratégico no mercado mundial do azeite. A sensação geral no encerramento do encontro foi amplamente partilhada: a oleicultura ibérica atravessa uma fase de profunda transformação, e fóruns técnicos como este revelam-se essenciais para partilhar conhecimento, analisar tendências e facilitar a ligação entre todos os intervenientes da cadeia de valor. O Congresso Ibérico de Oleicultura 2026 confirmou assim não só o excelente nível técnico do setor, mas também a capacidade de Espanha e Portugal para liderarem em conjunto algumas das grandes mudanças que marcarão o futuro mundial do azeite. n Mesa redonda ‘Incidência do aumento da produção de azeites na lagar na forma de comercialização do produto’, moderada por Sergio Caño, sócio profissional e principal da Juan Vilar Consultores Estratégicos. O Congresso Ibérico deslocou-se a Portugal após celebrar a sua primeira edição em Úbeda (Jaén).

24 EVENTOS ENERH2O: soluções integradas para a gestão de água e energia A 4.ª edição da ENERH2O regressa à Exponor (Porto) nos próximos dias 23 e 24 de setembro, reunindo os profissionais dos setores da água e da energia numa plataforma de partilha de conhecimento e apresentação de soluções técnicas. Gabriela Costa Ponto de encontro dos setores da energia e da água, a ENERH2O – Energy and Water Innovation & Technology volta a reunir profissionais e empresas das duas áreas, promovendo o contacto entre fornecedores, decisores e especialistas. Apresentando as mais recentes soluções integradas para a gestão e utilização eficiente de recursos hídricos e energéticos, incluindo energias renováveis, esta feira B2B dirige-se ao setor industrial, posicionando-se como uma plataforma de negócios chave para acompanhar a evolução tecnológica e as tendências de mercado nestes setores. Este ano o evento apresenta como novidades a introdução do conceito ‘Green Climat’, uma área dedicada à climatização sustentável de baixo carbono, e ainda a presença de novos setores, como a digitalização e a economia circular. A ENERH2O afirma-se como a principal feira profissional de energia e água, reunindo num único espaço expositores dos dois setores, de empresas líderes de mercado a start-ups inovadoras, com o objetivo de garantir “integração e economia de escala, colmatando uma lacuna e aproveitando as sinergias existentes entre fornecedores e compradores”. Refletindo a evolução das necessidades do mercado e a crescente exigência de soluções alinhadas com a transição energética, o certame apresenta as últimas novidades em soluções para a gestão de recursos essenciais, como smart energy, produção de energia renovável, gestão sustentável de água e tecnologias de climatização sustentável. Num contexto marcado pelas alterações climáticas, escassez de recursos e desafios geopolíticos, a ENERH2O pretende contribuir para uma mudança de paradigma nos domínios público e privado, tanto a nível doméstico como empresarial, através da gestão mais eficiente dos recursos hídricos e energéticos. Para tanto, o evento integra soluções tecnológicas e de investigação e desenvolvimento (I&D), partilha de conhecimento e análise de tendências e desafios críticos. A ENERH20 realiza-se em simultâneo com a 1.ª edição da EXPOPROCESSOS – Feira Internacional de Tecnologia para os Processos Industriais, reforçando a complementaridade entre soluções tecnológicas e processos industriais. n A Interempresas Media associa-se ao evento como media partner, e estará representada na feira pelas revistas Agriterra e O Instalador, que farão a cobertura editorial da iniciativa. ENERH2O – Energy and Water Innovation & Technology Data: 23 e 24 de setembro de 2026 Horário: 10h00 às 19h00 Local: Exponor – Feira Internacional do Porto Inscrições: A participação é gratuita, sujeita a inscrição: https://www.enerh2o.com/

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