BA27 - Agriterra

CONFERÊNCIA TÉCNICA DA VINHA 14 na vinha. “Não há competitividade da fileira sem competitividade da vinha”, declarou, defendendo uma maior aposta na digitalização, na agricultura de precisão, na capacitação dos produtores e na disponibilização de informação de mercado mais detalhada. O responsável anunciou ainda a intenção de reforçar a recolha e divulgação de dados económicos e produtivos, de forma a apoiar tanto as políticas públicas como as decisões empresariais. Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), assinalou igualmente a importância crescente da sustentabilidade para o futuro da atividade. Recordando o percurso da região na adoção de práticas de proteção e produção integrada, salientou que temas como a gestão da água e a adaptação às condições climáticas assumem hoje um caráter decisivo para a viticultura. Na sua perspetiva, a realização da conferência na Península de Setúbal surge num momento particularmente oportuno para discutir respostas concretas aos desafios que se colocam ao setor. MAIS CALOR, MENOS ÁGUA E CUSTOS CRESCENTES A primeira intervenção técnica da conferência esteve a cargo de José Silvestre, investigador do INIAV, que apresentou uma análise dos desafios que a viticultura enfrenta num contexto marcado pelas alterações climáticas, pela pressão económica e pela rápida evolução tecnológica. Partindo da ideia, anteriormente referida por Francisco Toscano Rico, de que o setor atravessa uma espécie de “tempestade perfeita”, o investigador explicou que a vinha está hoje sujeita a várias pressões em simultâneo: um clima mais quente e seco, custos de produção crescentes e mercados em transformação. Perante este cenário, defendeu uma mudança de paradigma na gestão das explorações. “A forma como decidimos é cada vez mais importante, tão importante quanto aquilo que decidimos”, salientou. Na componente económica, evidenciou o aumento dos custos da energia, dos fertilizantes e dos fitofármacos, bem como a crescente dificuldade em assegurar mão de obra. A resposta, considerou, passa por uma maior eficiência operacional, apoiada pela mecanização, automação, robótica e ferramentas de apoio à decisão. A análise climática ocupou o centro da apresentação. Com base em dados da Península de Setúbal, José Silvestre mostrou que a temperatura média durante o ciclo vegetativo aumentou cerca de 1,5°C nas últimas décadas, enquanto aumentou o número de dias acima dos 35°C e se agravaram os indicadores de secura. Segundo o investigador, a região passou, desde o início deste século, de um clima seco para muito seco. Paralelamente, a precipitação durante o ciclo vegetativo tem diminuído, enquanto a evapotranspiração continua a aumentar, elevando as necessidades de rega e a pressão sobre os recursos hídricos. As consequências refletem-se em maturações mais precoces, redução da acidez, aumento do potencial alcoólico e maior dificuldade em definir o momento ideal da vindima. A frequência crescente de ondas de calor e outros eventos extremos constitui outro fator de preocupação para a qualidade da uva e a estabilidade da produção. Perante esta realidade, José Silvestre advogou uma adaptação assente em práticas agronómicas ajustadas às novas condições climáticas, na valorização da diversidade genética e na adoção de tecnologias de precisão. Realçou, por outro lado, o desenvolvimento de sensores, monitorização por satélite e drone, sistemas de apoio à decisão e aplicações de machine learning para apoiar a gestão da rega, a monitorização nutricional e a previsão de pragas e doenças. Entre os exemplos apresentados, referiu modelos preditivos para estimar o estado hídrico da vinha e a criação, pelo INIAV, de uma rede nacional de armadilhas inteligentes para monitorização de pragas. Só na vinha deverão ser instaladas este ano cerca de 800 armadilhas inteligentes em várias regiões do país. Apesar do potencial destas ferramentas, alertou para limitações como os custos de implementação, a falta de interoperabilidade entre plataformas e a necessidade de validação em condições reais de campo. Não obstante, deixou uma mensagem clara: o futuro José Silvestre, investigador auxiliar do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), foi o keynote speaker do evento.

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