BA27 - Agriterra

ENTREVISTA | MAQUINARIA AGRÍCOLA 73 A John Deere tem sido tradicionalmente forte na agricultura em grande escala. Como está a ser redefinida a sua estratégia para liderar nas culturas de alto valor? Uma das questões-chave é que, quando se pensa na John Deere, esta é habitualmente associada às culturas extensivas. No entanto, identificámos que muitas das soluções de agricultura de precisão que tiveram sucesso nesses segmentos são igualmente relevantes para outras áreas, como as culturas de alto valor ou mesmo a produção animal. Por isso, reorganizámos o nosso negócio em torno dos sistemas de produção dos nossos clientes. No caso das culturas de alto valor – como olivais, pomares, vinhas, citrinos ou café –, focámo-nos em compreender os seus principais desafios: o custo da mão de obra, a rentabilidade e a gestão eficiente da informação para apoio à decisão. O que verificámos é que estes desafios são muito semelhantes aos da agricultura extensiva. Isso permitiu-nos escalar a nossa tecnologia e adaptá-la a diferentes sistemas de produção, alargando o nosso ecossistema tecnológico a estas culturas. Como acha que vai evoluir o equilíbrio entre mecanização e agricultura de precisão nas culturas de alto valor? Existe uma relação muito clara entre ambas. A agricultura de precisão permite analisar dados e tomar melhores decisões, mas continua a ser imprescindível atuar no terreno, e é aí que entra a mecanização. O que está a mudar é que a mecanização se está a tornar cada vez mais inteligente, graças a tecnologias como a visão computacional e a inteligência artificial. Ainda assim, vai continuar a ser necessária e, em alguns casos, haverá sempre tarefas em que a intervenção humana é fundamental. Falamos de ‘Smart Industrial’: a atividade industrial da empresa continua a ser essencial, mas o valor acrescentado provém da tecnologia inteligente incorporada nas máquinas. Como é que as pressões de sustentabilidade (recursos hídricos, fatores de produção, etc.) influenciam as vossas prioridades de inovação? Depende muito da região. Em locais como a Califórnia, as restrições hídricas obrigam ao desenvolvimento de soluções específicas. No entanto, para além da regulamentação, existe um compromisso intrínseco do agricultor com a sustentabilidade: melhorar a qualidade do solo para as gerações futuras. O desafio é alcançar uma ‘sustentabilidade economicamente viável’: manter o equilíbrio entre a proteção ambiental e a viabilidade económica da exploração. Quais são as principais barreiras técnicas que ainda limitam a adoção da robótica? O principal desafio não é tecnológico, mas sim de usabilidade. Os agricultores não procuram tecnologia por si só, mas soluções para os seus problemas. A chave está em simplificar as ferramentas, de modo a que não exijam conhecimentos técnicos avançados. Um bom exemplo é a fotografia: antes exigia experiência, mas hoje qualquer pessoa consegue obter bons resultados com um smartphone. Na agricultura deverá acontecer o mesmo. Se a tecnologia for simples e útil, a sua adoção será muito mais rápida. Como é que a John Deere está a integrar a inteligência artificial e a visão computacional na sua oferta? Um dos nossos principais diferenciadores é o John Deere Operations Center, uma plataforma que permite gerir a exploração agrícola. Entendemos que o futuro passa por um ecossistema aberto, onde diferentes empresas – incluindo startups – possam integrar-se através de APIs. Combinamos desenvolvimento interno com colaboração externa para oferecer soluções baseadas em inteligência artificial, análise de dados e sensorização das culturas. Este equilíbrio entre inovação interna e colaboração externa é fundamental para avançar. Estamos perto de ver operações totalmente autónomas em culturas de alto valor? Mais do que perto, já estamos lá. Atualmente, dispomos de soluções autónomas a operar em culturas de alto valor, como os sistemas adquiridos à Guss, que já trabalharam em milhões de hectares. A Guss é uma solução robotizada da John Deere.

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