BA27 - Agriterra

OPINIÃO | REGADIO E REGA SUSTENTÁVEL 58 A ilusão dos ‘rios livres’ num Alentejo em desertificação: o dogma vs. a realidade climática O recente manifesto da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, exigindo a suspensão imediata dos concursos públicos para os estudos das novas barragens nas ribeiras de Terges e Cobres e de Carreiras, confirma uma desconexão preocupante entre o ativismo de gabinete e a realidade de um território em risco. Enquanto a Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), com base numa avaliação técnica rigorosa e na necessidade imperativa de aumentar a resiliência do sistema AlquevaPedrógão, dá os primeiros passos para mobilizar recursos hídricos em bacias atualmente não dominadas, a Zero responde com slogans ideológicos que ignoram por completo a complexidade do regime hidrológico mediterrânico. António Lima, presidente da direção da Associação de Proprietários e Beneficiários do Alqueva (APBA) É sintomático notar que, enquanto a associação ambientalista apela à paralisia e à asfixia económica do interior, a Câmara Municipal de Mértola – que conhece o território e os efeitos dramáticos da escassez hídrica como ninguém – aplaude convictamente estes projetos, classificando-os como passos estruturantes e decisivos para o futuro do desenvolvimento local. Para quem vive e trabalha no Baixo Alentejo, a água não é um conceito abstrato de debate televisivo; é a linha ténue que separa a sobrevivência económica da desertificação física e humana. As ribeiras de Terges, Cobres e Carreiras são linhas de água caracterizadas por um regime marcadamente torrencial: apresentam volumes significativos durante escassos meses de inverno e ficam completamente secas ao longo de mais de metade do ano. Sem capacidade de armazenamento estratégico, reter a água das cheias invernais para assegurar a manutenção de caudais ecológicos mínimos na época estival torna-se impossível. Libertar estes cursos de água, como pretende a Zero, significa ver toda a água correr diretamente para o mar em janeiro, deixando os ecossistemas colapsados e sem uma única gota em julho. Reter a água na época das cheias não é uma agressão à natureza; sob a realidade das alterações climáticas, é o único escudo eficaz para a proteger.

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