BA27 - Agriterra

ENTREVISTA 39 disponibilizam o seu acesso. E é assim que se faz atualmente em grande parte do olival, da vinha e em outros cultivos: contratam-se empresas de serviços. Obviamente, nem todas as empresas têm a mesma capacidade financeira, mas as que não têm essa capacidade recorrem a estas empresas de serviços, que hoje estão espalhadas por todo o país. Num contexto de alterações climáticas, de escassez de mão de obra e de insuficiente renovação geracional, qual considera ser o maior desafio estratégico para a agricultura portuguesa na próxima década? Posso destacar dois desafios: • A questão da disponibilidade de água, através do cumprimento da Estratégia ‘Água que Une’, que é fundamental, pois Portugal tem apenas 14% da sua área em regadio. Espanha tem 25%, e isso leva a um aumento da capacidade produtiva brutal. Tudo aquilo que se puder investir em regadio tem retorno para o Estado, para os cidadãos e para o próprio país. • A falta de mão de obra, outro dos problemas do setor, considerando que neste momento, mais de 50% da mão de obra é estrangeira. Este valor obriga a que Portugal crie condições para que os trabalhadores imigrantes possam estar aqui e não tenham vontade de ir para outro país. Se não criarmos essas condições, se tivermos um governo que demora meses para atribuir um atestado de residência, para atribuir um número de segurança social, e que dificulta tudo... os estrangeiros irão para outro lado. Espanha acabou de legalizar quase um milhão de cidadãos estrangeiros e a França fez o mesmo, ou seja, têm condições de salários muito superiores às nossas. Temos de ter a noção de que, ou criamos essas condições e tratamos os trabalhadores com dignidade (como também deviam ter tratado os trabalhadores portugueses que saíram do país na década de 60), ou eles vão deixar de vir para Portugal. E nós precisamos dessa mão de obra estrangeira, sem dúvida. Não há mão de obra nacional que consiga responder às atuais necessidades. Se pudesse deixar uma mensagem aos decisores políticos portugueses e europeus que visitam a Feira Nacional da Agricultura 2026, quais seriam as prioridades para garantir um setor agrícola robusto, mais forte, competitivo e resiliente? Para os europeus, a mensagem seria que dotassem o orçamento da PAC com meios suficientes. E que corrigissem alguns dos exageros ambientais que cometeram no anterior mandato da Comissão, nomeadamente por Frans Timmermans [ex-vice-presidente da Comissão Europeia] e defendessem a questão da concorrência europeia. Para os nacionais, que os serviços do Ministério e de todos os organismos de que estamos dependentes, como a APA [Agência Portuguesa do Ambiente], funcionassem de uma forma rápida. E que criassem condições de competitividade quando há estes aumentos dos custos nos fatores de produção, o que não fizeram. O Governo esqueceu-se dos agricultores. Esta é a mensagem. n O dirigente da CAP com a comitiva do governo na FNA 26.

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