www.intermetal.pt 2026/2 29 Preço:11 € | Periodicidade: 4 edições por ano | Abril, Maio, Junho 2026 A Distributor of Tel. (+351) 229 737 965 Email:geral@maquimenta.pt PASTILHAS MP1200 ESTABELECE NOVOS NÍVEIS DE DURABILIDADE E FIABILIDADE NAS FERRAMENTAS REVESTIMENTO EM PVD MULTI-CAPA, RECOMENDADO PARA FRESAGEM Uma ampla variedade de pastilhas que oferece uma resposta válida aos desafios colocados na maquinação de aços, aços inoxidáveis, HRSA e Titânio. MP1200
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SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Luísa Santos Equipa Editorial Luísa Santos, Esther Güell, Nerea Gorriti Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas, Nuno Canelas redacao_intermetal@interempresas.net www.intermetal.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127299 Depósito Legal 455413/19 Distribuição total +4.100 envios. Distribuição digital a +3.400 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel Edição Número 29 – Abril, Maio, Junho 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.intermetal.pt/ EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da InterMETAL adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 6 EDITORIAL 7 Entrevista com Paulo Vaz, administrador da Exponor 12 Hannover Messe: indústria aponta o caminho para um futuro competitivo 16 Indústria 5.0: a nova revolução industrial que reposiciona o fator humano no centro da produção 20 Maquinagem inteligente: formação e investigação 23 Tendências globais em robótica impulsionam nova vaga de automação industrial 26 Yaskawa lança plataforma Motoman Next 30 Novo robô de maquinagem aproxima robótica industrial das máquinas-ferramenta 34 Calhas que comunicam, robôs que não falham: igus lança sensor que antecipa falhas em robôs industriais 38 Robôs colaborativos e sistemas híbridos ganham destaque nas PME 40 Que implicações tem o ‘boom’ da indústria da defesa no setor da soldadura e corte? 42 Automação Industrial: eficiência, inteligência e resiliência para enfrentar os desafios atuais 44 Digitalização e indústria 5.0 no setor da pesagem industrial 48 Revolução digital: como as tecnologias disruptivas estão a transformar a produção aeroespacial 50 DMG MORI acelera a inovação na aeronáutica com o conceito MX 53 Novo revestimento cerâmico pode triplicar a vida útil das ferramentas 56 Como colmatar o fosso produtivo na indústria aeroespacial europeia 58 A tempestade perfeita do automóvel europeu: guerra, cadeias de valor e o risco de uma globalização em rotura 62 Carboneto de silício: o substrato cada vez mais dominante coloca desafios ao polimento 64 Magnésio reforça potencial industrial com novas soluções de processamento 68 Caldeira elétrica: uma decisão industrial que já não pode ser adiada 70 Em segurança se solda, corta e molda metais… [6] Espaços confinados 71 DOSSIER: SETOR AERONÁUTICO
6 MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER ATUALIDADE Moulding Expo 2027 estreia novo conceito e identidade renovada A Moulding Expo 2027 prepara uma nova fase estratégica, com a introdução de um conceito totalmente renovado e uma nova identidade de marca. A decisão surge num contexto de transformação e desafios no setor da fabricação de ferramentas e moldes. Após um processo de consulta junto dos expositores, a Messe Stuttgart avançou com uma reformulação profunda do evento. Entre as principais novidades está a introdução de pacotes ‘tudo incluído’, que visam simplificar a participação das empresas. O novo modelo inclui ainda uma redução da duração da feira, que passa de quatro para dois dias, bem como formatos de stand padronizados, construção uniforme e serviços adicionais integrados, como estacionamento, catering, gestão de contactos e comunicação. A edição de 2027 contará também com uma imagem renovada, incluindo novas cores, identidade visual e um novo slogan, reforçando o posicionamento do evento no panorama internacional do setor. Fuchs introduz ‘Smart Services’ para digitalizar gestão da lubrificação em Portugal A Fuchs lançou em Portugal os ‘Smart Services’, uma solução que integra tecnologia digital, equipamentos e serviços especializados para otimizar a gestão da lubrificação industrial. Carlos Braga, diretor técnico da Fuchs Portugal, sublinha que os Smart Services são feitos à medida. A nova abordagem permite uma gestão personalizada e digitalizada, com impacto direto na redução de custos, prevenção de falhas e diminuição de paragens não programadas. Disponível para todas as empresas, independentemente do fornecedor de lubrificantes, o serviço representa uma mudança face aos modelos tradicionais. A implementação segue uma metodologia estruturada — análise, planeamento, gestão e otimização — e organiza-se em três áreas: equipamentos, serviços técnicos e soluções digitais. Entre estas, destaca-se o sistema Fluids Connect, que permite monitorizar em tempo real os pontos de lubrificação, com recurso a sensores, software e alertas automáticos. A solução já está em operação em Portugal, nomeadamente na Daimler Truck Retail, evidenciando ganhos ao nível do controlo de consumos e gestão de stocks. Com esta iniciativa, a Fuchs reforça a sua estratégia de digitalização e posicionamento em serviços de valor acrescentado para a indústria.
7 ANEME lança projetos para internacionalização e sustentabilidade no setor metalomecânico A ANEME deu início aos projetos Atlantic Metal e ESG4Metal, com financiamento do Portugal 2030 no âmbito do Compete 2030, visando reforçar a competitividade das PME do setor. O Atlantic Metal foca-se na internacionalização, promovendo a entrada em mercados estratégicos do Atlântico através de missões empresariais, estudos de mercado e ações de inteligência competitiva. A iniciativa aposta numa abordagem colaborativa, incentivando a diversificação geográfica e a criação de redes empresariais, num contexto global marcado por incerteza. Paralelamente, o ESG4Metal centra-se na integração de práticas ambientais, sociais e de governação (ESG), disponibilizando ferramentas, formação e conteúdos técnicos para apoiar as empresas na adaptação a novas exigências regulatórias e de mercado. Segundo a associação, estas iniciativas refletem duas prioridades estratégicas para o setor: a expansão internacional e a sustentabilidade, cada vez mais determinantes para o posicionamento competitivo da indústria metalomecânica. EDITORIAL A 29ª edição da InterMetal reflete uma indústria metalomecânica em transição, onde a evolução tecnológica caminha lado a lado com a valorização do fator humano. Num cenário marcado por incerteza geopolítica, pressão sobre custos e exigências ambientais, a capacidade de adaptação torna-se decisiva — e essa adaptação nasce da interação entre pessoas, conhecimento e tecnologia. A digitalização e a Indústria 5.0 são hoje expressão dessa nova realidade. Mais do que sistemas interligados e produção orientada por dados, assiste-se a uma revalorização do papel do operador, agora integrado em ecossistemas inteligentes que potenciam a tomada de decisão e a flexibilidade produtiva. A tecnologia deixa de substituir para passar a complementar, criando ambientes industriais mais resilientes e centrados nas competências humanas. Também no domínio da robótica e da automatização se verifica uma mudança significativa. A nova geração de soluções aposta na colaboração, na facilidade de integração e na adaptabilidade a contextos produtivos diversos. Esta evolução permite não só ganhos de eficiência e qualidade, mas também uma resposta mais eficaz à escassez de mão de obra qualificada — um dos desafios mais prementes do setor. O dossier dedicado à indústria aeronáutica que incluímos neste número evidencia de forma clara esta convergência. Perante o aumento da procura global, o setor acelera a adoção de tecnologias digitais, novos modelos de fabrico e soluções avançadas de maquinagem. Inovações como o conceito MX ou o desenvolvimento de novos revestimentos para ferramentas demonstram como a eficiência produtiva depende cada vez mais da combinação entre engenharia, materiais e conhecimento aplicado. Ainda assim, persistem desafios relevantes, nomeadamente ao nível da capacidade produtiva europeia, que exigem uma abordagem integrada ao longo de toda a cadeia de valor. Destaque ainda para a entrevista a Paulo Vaz, administrador da Exponor, sobre a próxima edição da 360 Tech Industry, que irá decorrer a 20 e 21 de maio. Fundada em 2019, a feira posiciona-se cada vez mais como uma plataforma de atualização tecnológica contínua — um reflexo de uma indústria onde a aprendizagem permanente é indispensável. Como habitual, a InterMetal marca presença no certame, reforçando o seu compromisso com a proximidade ao tecido industrial nacional. Se passar pela Exponor, visite-nos no Pavilhão 5, Stand D02. Até lá, boa leitura! Tecnologia que evolui, pessoas que transformam
8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER UE reforça regras para garantir segurança no acesso a matérias-primas críticas Governo alarga contrato coletivo da metalurgia a empresas e trabalhadores fora das associações O Governo português decidiu estender o contrato coletivo negociado entre a Fename e o Sitese a empresas e trabalhadores do setor metalúrgico e metalomecânico não filiados, abrangendo Portugal continental. A medida, publicada em Diário da República, garante que todos os trabalhadores passam a beneficiar das mesmas condições salariais e laborais definidas no acordo. Cerca de 22.900 trabalhadores serão abrangidos, com ajustes salariais sobretudo para os que auferiam abaixo dos valores estipulados, promovendo maior equidade no setor. Ficam excluídas as empresas associadas da AIMMAP e os trabalhadores representados pela Fiequimetal. Segundo o Governo, a extensão visa uniformizar condições de trabalho e reduzir desigualdades entre empresas, reforçando a coesão laboral num setor estratégico da indústria nacional. Hypermetal capta três milhões e reforça ambição nos setores da defesa e espaço A Hypermetal, sediada em Vila Nova de Gaia, garantiu um financiamento de três milhões de euros junto da Inspire Capital e da RHC Capital, avançando com uma estratégia faseada para sustentar o crescimento. Segundo o CEO, Afonso Nogueira, o montante assegura a execução da fase atual do plano de negócios, podendo atingir os cinco milhões de euros em etapas futuras. A empresa desenvolve projetos com grandes grupos industriais nos setores espacial, civil e da defesa, sendo este último cada vez mais relevante no pipeline. Em paralelo, a Hypermetal está a aprofundar contactos com a Dassault Aviation, com vista a potenciais colaborações em programas espaciais e militares. Entre as oportunidades estão o projeto orbital reutilizável Vortex e o fornecimento de componentes ou serviços associados a plataformas como o Rafale ou o Eurofighter. A empresa participa ainda em consórcios da Agência Espacial Europeia e lidera o projeto TAMFA, focado na fabricação aditiva de tungsténio para fusão nuclear, reforçando o seu posicionamento em tecnologias avançadas e estratégicas para a indústria europeia. O Conselho da União Europeia adotou a sua posição sobre a revisão do Regulamento de Matérias-Primas Críticas, reforçando a segurança do aprovisionamento e a circularidade industrial. A proposta atribui à Comissão Europeia a identificação de grandes empresas utilizadoras destes recursos e a avaliação das suas vulnerabilidades, obrigando à partilha dessa informação com os Estados-Membros. Prevê ainda medidas preventivas em caso de disrupções, como a diversificação de fornecedores, para evitar interrupções na produção. Entre as novidades, destaca-se a introdução de passaportes digitais de produtos, que permitem rastrear a composição de materiais como ímanes permanentes, facilitando a reciclagem e a transparência. O Conselho deu também mandato para iniciar negociações com o Parlamento Europeu, visando um quadro regulatório mais robusto. As matérias-primas críticas, essenciais para setores como automóvel, eletrónica e energia, são estratégicas para a transição digital e ecológica, sendo a sua gestão um fator-chave para a competitividade industrial europeia.
9 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Sandvik Coromant digitaliza recondicionamento de ferramentas com novo portal A Sandvik Coromant lançou um portal digital para o recondicionamento de ferramentas rotativas inteiriças, substituindo processos manuais por uma solução totalmente online. InnovMetric reforça competências em metrologia 3D com aquisição de ativos da Digisens A InnovMetric adquiriu a propriedade intelectual da Digisens, reforçando as suas competências em processamento de dados de tomografia computorizada e metrologia 3D. A operação inclui também a integração da equipa técnica da Digisens, o que irá permitir acelerar o desenvolvimento de soluções avançadas de inspeção. O objetivo é responder às exigências crescentes de setores como o aeroespacial e o médico, onde a complexidade das peças e a adoção de fabrico aditivo requerem controlo dimensional mais sofisticado. Esta aquisição reflete a tendência de convergência entre metrologia, análise de dados e digitalização da qualidade na indústria transformadora. Na plataforma, os utilizadores podem selecionar a caixa de envio preferida, seja uma fornecida pela Sandvik Coromant ou sua própria embalagem, adicionar notas de pedido e enviar a encomenda. A plataforma permite obter orçamentos imediatos, submeter encomendas diretamente e acompanhar o estado do recondicionamento em tempo real, aumentando a transparência e reduzindo prazos. O novo modelo elimina fluxos de trabalho complexos entre diferentes departamentos, acelerando a tomada de decisão e centralizando o controlo no cliente. Segundo a empresa, o prazo de resposta pode atingir cerca de 21 dias, com total rastreabilidade do processo e histórico automático das intervenções. O sistema permite ainda monitorizar os ciclos de recondicionamento, facilitando a gestão de ferramentas. Do ponto de vista económico, o recondicionamento pode reduzir custos em pelo menos 50% face à compra de ferramentas novas. A solução integra também programas de reciclagem, alinhando-se com objetivos de sustentabilidade e economia circular no setor metalomecânico. smart plastics: antecipe falhas. evite paragens. motion? plastics! igus ® Lda. Tel. 226 109 000 (chamada para rede fixa nacional) info@igus.pt smartplastics2026.indd 1 21/04/2026 18:16:27
10 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Produção de máquinas na Europa deverá crescer 1% em 2026 após dois anos de queda A Crédito y Caución prevê um crescimento de 0,9% na produção de máquinas e equipamentos na Europa em 2026, após dois anos consecutivos de contração. Este desempenho contrasta com o cenário global, onde o setor deverá crescer 3,1%. Global Industrie reforça papel determinante da indústria na Europa A Global Industrie 2026, realizada entre 30 de março e 2 de abril em Paris Nord Villepinte, reuniu 60.000 profissionais e 8.000 jovens, o que representa um crescimento de 12% face à edição de 2024. O evento, presidido por Nicolas Dufourcq, destacou-se como um ponto de encontro central do ecossistema industrial europeu, num contexto em que a indústria assume crescente relevância estratégica. A feira abordou temas-chave como internacionalização, inovação, transição energética, digitalização e atração de talento. A dimensão internacional foi reforçada pela participação de representantes institucionais, incluindo Gunther Krichbaum, e por uma presença de 25% de expositores oriundos de 91 países. No plano empresarial, a Global Industrie reuniu 2.300 expositores de 14 setores industriais, mais de 3.000 máquinas em funcionamento e promoveu 240 conferências com 700 oradores, consolidando-se como uma das principais plataformas industriais europeias. Segundo um estudo publicado em março pela empresa, a recuperação europeia será impulsionada por estímulos orçamentais, nomeadamente na Alemanha, e pelo reforço do investimento em defesa na União Europeia, com impacto positivo em setores como o aeroespacial, naval e militar. A Alemanha continua a liderar, representando mais de 45% da produção da zona euro. Apesar desta melhoria, o setor enfrenta desafios significativos, incluindo incerteza geopolítica, volatilidade dos preços das matérias-primas e dependência de cadeias de abastecimento globais. A exposição ao mercado norte-americano e a possível subida de tarifas sobre metais constituem riscos adicionais. O relatório destaca ainda a crescente concorrência da China, que tem ganho quota nas exportações globais de maquinaria. Como fatores positivos, sobressaem tecnologias como automação, robótica, inteligência artificial e impressão 3D, que continuam a impulsionar a produtividade e a eficiência na indústria transformadora.
11 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER rEGraph cria plataforma para reaproveitar elétrodos de grafite na indústria de moldes O projeto rEGraph, liderado pela Moldata e cofinanciado pelo Compete 2030, está a desenvolver uma plataforma automatizada para reaproveitamento de elétrodos de grafite usados na indústria de moldes. A iniciativa visa reduzir resíduos e promover práticas de economia circular num setor onde estes componentes são, regra geral, de utilização única. A solução integra inteligência artificial, bases de dados tridimensionais e análise geométrica para monitorizar o ciclo de vida dos elétrodos e identificar novas aplicações. Atualmente, a ausência de rastreabilidade e valorização destes materiais contribui para o seu descarte em aterro, aumentando o impacto ambiental da indústria. A plataforma analisa propriedades físicas e químicas dos elétrodos usados, propondo a sua reutilização no fabrico de novos moldes e componentes. O consórcio envolve nove entidades, entre empresas e centros de investigação, combinando tecnologias como Big Data e Advanced Analytics. Segundo António Gameiro, gerente da Moldata, o projeto “transforma resíduos industriais em recursos”, permitindo reduzir custos e melhorar a eficiência produtiva. Com o apoio do Compete 2030, a iniciativa visa contribuir para uma indústria mais competitiva, digital e sustentável, reforçando o papel de Portugal como referência na produção de moldes na Europa. União Europeia acorda novas regras para proteger indústria do aço e reduzir importações O Conselho da União Europeia e o Parlamento Europeu alcançaram um acordo provisório para um novo regime de proteção do mercado do aço, destinado a substituir as atuais salvaguardas após junho de 2026 e a mitigar os efeitos da sobrecapacidade global. O novo regulamento prevê uma revisão dos contingentes pautais (TRQ), com uma redução de cerca de 47% nas quotas de importação face a 2024 (18,3 milhões de toneladas) e o aumento das tarifas para 50% sobre volumes excedentários. A medida visa limitar a entrada excessiva de aço, mantendo acesso controlado para parceiros tradicionais. No primeiro ano, quotas não utilizadas poderão transitar entre trimestres, reforçando a flexibilidade das cadeias de abastecimento. A partir daí, a Comissão Europeia avaliará a continuidade deste mecanismo com base na evolução do mercado. Destaca-se ainda a introdução do princípio ‘melt and pour’, que identifica a origem real do aço, reforçando a transparência e combatendo práticas de evasão comercial. O regulamento mantém o âmbito atual de produtos, mas prevê revisões periódicas e possível inclusão de novos segmentos, como tubos e fios. Inclui também mecanismos de monitorização contínua. Em paralelo, a UE reafirma a intenção de reduzir a dependência da Rússia nas importações de aço. A entrada em vigor está prevista para 1 de julho de 2026, num contexto de forte pressão sobre uma indústria que emprega cerca de 300 mil pessoas na Europa.
ENTREVISTA 12 “Queremos afirmar a 360 Tech Industry como plataforma contínua de atualização tecnológica e proximidade à indústria nacional” Num contexto industrial marcado por pressão competitiva, transição digital e incerteza geopolítica, a Exponor prepara mais uma edição da 360 Tech Industry com ambição reforçada. Agendada para 20 e 21 de maio, a feira assume-se como complemento estratégico à EMAF, reforçando a ligação ao tecido industrial entre ciclos expositivos. Em entrevista, Paulo Vaz, administrador da Exponor, explica a evolução do evento, destaca as principais tendências tecnológicas e enquadra o papel da feira como espaço de resposta aos desafios atuais da indústria. Luísa Santos PAULO VAZ, ADMINISTRADOR DA EXPONOR
13 A 360 Tech Industry regressa em 2026 num contexto industrial particularmente exigente. Que ambição estratégica está definida para esta edição? A edição de 2026 da 360 Tech Industry enquadra-se numa estratégia clara da Exponor de apoio continuado ao tecido industrial, num momento de grande exigência e transformação. A ambição passa por consolidar esta feira como um evento intercalar estruturante, que assegura continuidade, proximidade ao mercado e atualização tecnológica entre edições da EMAF, reforçando o papel da Exponor enquanto plataforma de serviço à indústria. De que forma evoluiu o posicionamento da feira desde a sua estreia em 2019? Desde a sua estreia, em 2019, a 360 Tech Industry evoluiu de forma consistente e sustentada. Hoje, apresenta-se como uma feira madura, integrada no calendário estratégico da Exponor, com um posicionamento bem definido enquanto evento complementar à EMAF. Esta evolução reflete a capacidade de adaptação da Exponor às dinâmicas do mercado e às necessidades de um setor em permanente transformação. Desde a primeira edição, a indústria tem atravessado uma transformação acelerada, impulsionada pela digitalização e pela Indústria 4.0. Como é que esta evolução se reflete na estrutura e nos conteúdos da feira? A transformação digital e a Indústria 4.0 estão plenamente refletidas na conceção da 360 Tech Industry. A feira acompanha a evolução da indústria, privilegiando tecnologias com aplicação direta aos processos produtivos, soluções integradas e conteúdos orientados para a eficiência, a automatização e a valorização dos dados industriais. Trata-se de uma abordagem alinhada com a realidade atual e futura das empresas. No que se refere à estrutura, há novidades em relação à edição anterior? A estrutura da feira mantém-se alinhada com a edição anterior, garantindo continuidade e consistência na organização dos conteúdos e das áreas expositivas. Como principal novidade, destaca-se a introdução de um novo palco dedicado ao debate sobre o futuro da indústria e os mais recentes avanços tecnológicos. Este espaço será orientado para a discussão de temas estratégicos como Cyber OT, Smart Industry, digitalização, conectividade e inovação aplicada ao contexto industrial. Este reforço do programa contribui para valorizar a componente de conhecimento e partilha, complementando a área expositiva com conteúdos relevantes e atuais para os profissionais do setor. JAPANESE PERFECTION. 1.600.000 machos produzidos todos os meses: cada um passa por 3 controlos de qualidade, todos são perfeitos. Uma liderança construída com obsessão e paixão desde 1923. www.yamawa.eu Produtos distríbuidos por Sorma Ibérica Tools S.L. Barcelona - info@sormaiberica.com ` j v `j jv `v `jv h
ENTREVISTA 14 Quais são os principais setores e tecnologias em destaque na edição de 2026, e que tendências considera mais determinantes para a competitividade da indústria nacional? Destacam-se áreas como automação industrial, robótica, software e sistemas industriais, metrologia, manutenção avançada, eficiência energética e soluções sustentáveis. As tendências mais determinantes relacionam-se com a digitalização dos processos produtivos, a eficiência na utilização de recursos e a integração tecnológica, fatores essenciais para reforçar a competitividade e a capacidade exportadora da indústria nacional. A atual conjuntura internacional — marcada por conflitos geopolíticos, volatilidade nos preços da energia e matérias-primas — impactou, de algum modo, a preparação desta edição? A conjuntura internacional reforçou a relevância estratégica da 360 Tech Industry. A Exponor teve sempre presente a necessidade de criar um espaço onde a indústria possa encontrar respostas tecnológicas ajustadas aos atuais desafios económicos e operacionais, promovendo soluções que contribuam para maior eficiência, previsibilidade e sustentabilidade. Neste contexto desafiante, de que forma as soluções tecnológicas apresentadas na 360 Tech Industry podem ajudar as empresas a aumentar a resiliência, reduzir custos e ganhar eficiência operacional? As soluções tecnológicas presentes permitem às empresas otimizar processos, reduzir consumos, melhorar a gestão da produção e antecipar necessidades de manutenção. Estes fatores são determinantes para aumentar a resiliência industrial, controlar custos operacionais e reforçar a eficiência, num contexto de elevada incerteza económica. Estão previstas iniciativas paralelas (conferências, workshops, demonstrações) ao longo dos dois dias de exposição? A par da área expositiva, a 360 Tech Industry integra um programa estruturado de iniciativas paralelas, distribuídas por diferentes auditórios e ao longo dos dois dias. O evento contará com conferências, apresentações técnicas e momentos de demonstração, organizados em palcos - o Let’s Talk e o Tech Talks, onde serão abordadas temáticas estratégicas para a indústria, como digitalização, automação, Cyber OT, Smart Industry e inovação tecnológica. Destaca-se ainda, no segundo dia, uma conferência dedicada ao fabrico aditivo - “Industrialização do Fabrico Aditivo: Da Tecnologia à Produção- que irá explorar a evolução desta tecnologia e a sua aplicação prática em contexto industrial, evidenciando o seu impacto na produção, eficiência e desenvolvimento de novos produtos. Estas iniciativas reforçam a componente de conhecimento do evento, promovendo a partilha de experiências, a apresentação de casos concretos e a reflexão sobre o futuro da indústria. O programa atualizado segue em anexo e continuará a ser enriquecido até à data do evento. Que profissionais e setores visitantes esperam atrair? A feira destina-se a quadros dirigentes, decisores e técnicos especializados da indústria, nomeadamente gestores, engenheiros e responsáveis de produção, manutenção, inovação e compras, provenientes da indústria transformadora, metalomecânica, moldes, automóvel, energia e setores afins. Quais considera que são, atualmente, as principais necessidades dos visitantes e como é que os expositores estão a adaptar a sua oferta a essas exigências? As principais necessidades passam pelo acesso a soluções tecnológicas fiáveis, eficientes e economicamente sustentáveis, bem como por informação qualificada que apoie decisões de investimento. Os expositores têm vindo a adaptar a sua oferta, apresentando propostas integradas, escaláveis e adequadas à realidade das empresas industriais nacionais. Por fim, que mensagem gostaria de deixar aos profissionais da indústria que ainda ponderam visitar a 360 Tech Industry 2026? O que podem esperar encontrar de verdadeiramente diferenciador nesta edição? A 360 Tech Industry 2026 é um evento de referência no ciclo intercalar da EMAF, concebido para servir a indústria com rigor, atualidade e proximidade ao mercado. Os profissionais que visitarem a feira encontrarão tecnologia aplicada, contactos qualificados e uma visão objetiva das tendências que estão a moldar o futuro da indústria. Trata-se de uma oportunidade relevante para reforçar conhecimento, preparar decisões e acompanhar a evolução do setor. n
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16 HANNOVER MESSE: INDÚSTRIA APONTA O CAMINHO PARA UM FUTURO COMPETITIVO A Hannover Messe 2026 voltou a afirmar-se como o principal palco global da indústria transformadora, evidenciando que, mesmo num contexto económico e geopolítico desafiante, o setor dispõe já de soluções concretas para reforçar a competitividade. Com cerca de 110 mil visitantes, o certame alemão registou uma ligeira quebra face ao ano anterior, condicionada por constrangimentos logísticos, mas manteve elevada qualidade nas interações e forte dinamismo tecnológico. Com uma participação internacional significativa — cerca de 40% dos visitantes —, a feira confirmou o seu estatuto global, com destaque para mercados como China, Estados Unidos, Japão, Brasil e Coreia do Sul. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AUTOMAÇÃO NO CENTRO DA TRANSFORMAÇÃO A edição deste ano evidenciou de forma clara que tecnologias como inteligência artificial, robótica avançada, automação e infraestruturas energéticas são hoje pilares da transformação industrial. Entre as soluções apresentadas destacaram-se sistemas O Brasil foi o País Parceiro desta edição da feira.
17 de produção suportados por IA, capazes de otimizar processos e antecipar falhas, bem como robôs humanoides já preparados para executar tarefas complexas em ambientes industriais. Em paralelo, ganharam relevância as tecnologias orientadas para a eficiência energética e expansão das redes, fundamentais para sustentar a transição para uma indústria neutra em carbono. Em suma, as empresas expositoras demonstraram que “a Europa dispõe das ferramentas necessárias para se manter competitiva, sendo agora essencial acelerar a sua implementação”, frisou Jochen Köckler, CEO da Deutsche Messe AG. PRESSÃO REGULATÓRIA E RESPOSTA INDUSTRIAL Apesar do dinamismo tecnológico, o evento refletiu também as preocupações do tecido industrial europeu. Custos elevados, excesso de regulação e instabilidade geopolítica continuam a pressionar a competitividade das empresas. Ainda assim, a mensagem dominante foi de resiliência e ação. De acordo com Gunther Kegel, presidente da ZVEI (Associação da Indústria Elétrica e Digital Alemã) e do Conselho Consultivo de Expositores da Hannover Messe, a indústria já demonstrou o potencial das novas tecnologias, sendo agora crucial que decisores políticos eliminem barreiras à sua adoção, sobretudo no domínio da IA industrial. Na mesma linha, Thilo Brodtmann, diretor executivo da VDMA, destacou o papel das PME industriais na oferta de soluções tecnológicas, sublinhando a necessidade de reformas estruturais para sustentar essa capacidade. O robô humanoide da Schaeffler foi uma das estrelas da Hannover Messe 2026.
18 BRASIL REFORÇA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL A participação do Brasil como país parceiro trouxe uma dimensão estratégica adicional ao evento. Com uma forte presença nas áreas industrial, energética e digital, o país posicionou-se como parceiro relevante para a diversificação das cadeias de valor e para o reforço das relações entre Europa e América Latina. Este enquadramento ganha particular relevância no contexto do acordo Mercosur, que deverá impulsionar novas oportunidades de cooperação económica. NOVO CONCEITO EXPOSITIVO APOSTA NA EFICIÊNCIA A organização introduziu melhorias no conceito da feira, com um novo 'layout' e formatos de interação mais orientados para resultados. As Masterclasses e o espaço Center Stage assumiram particular destaque, reunindo cerca de 30 mil visitantes e afirmando-se como plataformas centrais de partilha de conhecimento e debate estratégico. NOVIDADES PARA 2027 A edição de 2027 terá Espanha como País Parceiro. Entre as novidades, destaca-se a realização da Europe Energy Week, em paralelo com a feira. A iniciativa irá reunir produtores de energia, empresas industriais, operadores de infraestruturas e decisores políticos, com o intuito de promover o debate em torno do futuro energético da Europa. Outra inovação relevante prende-se com a duração do evento: a partir de 2027, a Hannover Messe concentrar-se-á nos dias de maior afluência, decorrendo de segunda-feira, 5 de abril, a quinta-feira, 8 de abril. Esta abordagem visa otimizar a atração de visitantes e 'stakeholders' de relevo, potenciando simultaneamente a geração de negócios e tornando o certame mais eficiente e atrativo para todos os participantes. n Stand da SEW-Eurodrive no certame. FOCO NA APLICAÇÃO INDUSTRIAL DA IA Com cerca de 3.000 expositores de áreas como engenharia mecânica, automação, energia e digitalização, a Hannover Messe consolida-se como um barómetro da transformação industrial. A integração entre inteligência artificial e sistemas produtivos físicos surge, cada vez mais, como o eixo central dessa evolução — e como um fator determinante para a competitividade futura da indústria europeia. A integração entre inteligência artificial e sistemas produtivos físicos é uma tendência crescente.
20 INDÚSTRIA 5.0 Indústria 5.0: a nova revolução industrial que reposiciona o fator humano no centro da produção Num contexto industrial marcado por escassez de mão de obra qualificada, volatilidade das cadeias de abastecimento e pressão crescente para descarbonização, a Indústria 5.0 emerge como uma evolução estratégica — mais do que tecnológica — da transformação iniciada na última década. Ao contrário da Indústria 4.0, centrada na digitalização e automação, este novo paradigma propõe uma reconfiguração profunda da relação entre tecnologia, pessoas e sustentabilidade. O objetivo já não é apenas produzir mais, mas produzir melhor, com maior resiliência, menor impacto ambiental e uma integração efetiva do capital humano nos processos produtivos. DA INDÚSTRIA 4.0 À 5.0: UMA EVOLUÇÃO NECESSÁRIA A Indústria 4.0, introduzida na Alemanha em 2011, impulsionou a adoção massiva de tecnologias como IoT, big data, inteligência artificial e robótica. O seu foco esteve na eficiência e na produtividade, através da ligação entre sistemas físicos e digitais. Contudo, este modelo revelou limitações estruturais. A ênfase excessiva na automação levou, em muitos casos, à subvalorização do papel humano e à ausência de uma abordagem consistente às dimensões social e ambiental. A Indústria 5.0 surge precisamente como resposta a essas lacunas. Não representa uma rutura, mas sim uma evolução conceptual que integra três pilares fundamentais: • centralidade do ser humano • sustentabilidade ambiental • resiliência industrial Esta abordagem reconhece que a competitividade futura depende tanto da tecnologia como da capacidade de integrar conhecimento humano, responsabilidade social e eficiência energética num mesmo sistema produtivo. O PAPEL CENTRAL DO FATOR HUMANO Um dos elementos mais distintivos da Indústria 5.0 é a reposição do trabalhador no centro do sistema produtivo. Em vez de substituir o ser humano, a tecnologia passa a atuar como elemento de amplificação das suas capacidades. A colaboração homem-máquina — nomeadamente através de robôs colaborativos (cobots) — permite automatizar tarefas repetitivas ou perigosas, libertando os operadores para funções de maior valor acrescentado.
21 INDÚSTRIA 5.0 Esta lógica traduz-se numa mudança estrutural: o operador torna-se decisor e supervisor; o conhecimento tácito ganha relevância estratégica; a criatividade e a capacidade de adaptação tornam-se ativos industriais fundamentais. Na prática, a Indústria 5.0 valoriza aquilo que a automação não consegue replicar plenamente: experiência, julgamento e capacidade de inovação. SUSTENTABILIDADE E EFICIÊNCIA DE RECURSOS COMO IMPERATIVOS INDUSTRIAIS Outro eixo central da Indústria 5.0 é a integração da sustentabilidade nos processos produtivos. A indústria é chamada a desempenhar um papel ativo na resposta a desafios como alterações climáticas, escassez de recursos e transição energética. Neste contexto, tecnologias avançadas são utilizadas para reduzir consumo energético, otimizar utilização de matérias-primas, minimizar desperdício e promover modelos de economia circular. Soluções como sistemas de controlo inteligente, digital twins e análise de dados permitem otimizar processos e reduzir custos operacionais, ao mesmo tempo que garantem conformidade com requisitos ambientais cada vez mais exigentes. Este alinhamento entre eficiência económica e sustentabilidade constitui um dos principais fatores diferenciadores face à Indústria 4.0. RESILIÊNCIA INDUSTRIAL NUM CONTEXTO VOLÁTIL A crescente instabilidade geopolítica e económica tem exposto fragilidades nas cadeias de abastecimento globais. A Indústria 5.0 responde a este desafio através da promoção de sistemas produtivos mais flexíveis e adaptativos. A combinação de dados em tempo real, inteligência artificial e digitalização permite reconfigurar rapidamente linhas de produção, adaptar produtos às necessidades do mercado e antecipar falhas e disrupções. A cibersegurança assume igualmente um papel crítico, numa altura em que a conectividade industrial aumenta a exposição a riscos digitais. APLICAÇÃO AO SETOR METALOMECÂNICO: FLEXIBILIDADE, PRECISÃO E PERSONALIZAÇÃO No setor metalomecânico, a Indústria 5.0 assume particular relevância devido à crescente exigência de personalização, qualidade e eficiência. A integração entre capacidades humanas e tecnologias avançadas permite responder a desafios específicos da indústria, como a produção de peças complexas, a prototipagem rápida e a adaptação a requisitos do cliente. Entre os principais benefícios destacam-se a maior flexibilidade produtiva, redução de tempos de inatividade, melhoria da qualidade final e capacidade de produção personalizada a custos competitivos. A colaboração entre operadores e cobots revela-se especialmente eficaz em processos como soldadura, maquinação ou montagem de precisão, onde a combinação de repetibilidade e julgamento humano é determinante. Ao mesmo tempo, tecnologias como IoT e inteligência artificial permitem monitorizar equipamentos, prever falhas e otimizar recursos, contribuindo para ganhos significativos de produtividade e sustentabilidade. No entanto, a implementação não está isenta de desafios. A necessidade de formação contínua, o investimento em infraestruturas tecnológicas e a resistência à mudança organizacional continuam a ser obstáculos relevantes para muitas empresas. O MAIOR DESAFIO: CULTURA ORGANIZACIONAL E ADOÇÃO EFETIVA Apesar dos avanços tecnológicos, uma das principais conclusões emergentes do debate internacional é clara: o verdadeiro bloqueio à transformação industrial não é tecnológico, mas cultural. A experiência da Indústria 4.0 demonstrou que o investimento em tecnologia não garante, por si só, ganhos de produtividade. Em muitos casos, sistemas complexos, pouco intuitivos e mal integrados acabaram por limitar o impacto esperado. Como sublinhado em diversos fóruns industriais recentes, o problema central
22 INDÚSTRIA 5.0 reside na forma como as organizações encaram a transformação digital. A persistência de culturas hierárquicas, pouco abertas à inovação e desalinhadas com as expectativas das novas gerações tem dificultado a atração e retenção de talento. A Indústria 5.0 propõe uma inversão desta lógica. A tecnologia deve ser desenhada em função das pessoas e não o contrário. Ou seja, as empresas terão de criar ambientes de trabalho mais colaborativos, prover ferramentas intuitivas centradas no utilizador e valorizar o contributo humano nos processos. Sem esta mudança cultural, o risco é repetir os erros do passado, com investimentos elevados e impacto limitado. A RESPOSTA EUROPEIA: A COMMUNITY OF PRACTICE 5.0 A União Europeia tem assumido um papel ativo na promoção da Indústria 5.0, enquadrando-a como elemento-chave das transições digital e ecológica. Neste contexto, destaca-se a criação da Community of Practice (CoP 5.0), uma iniciativa que reúne empresas, centros de investigação, instituições públicas e outros stakeholders do ecossistema industrial europeu. Lançada em 2023, esta comunidade tem como objetivos mapear iniciativas e projetos-piloto em Indústria 5.0; desenvolver ferramentas de avaliação e aprendizagem; promover a partilha de boas práticas; e fomentar colaboração entre diferentes ‘players’. A CoP 5.0 assume-se como uma plataforma estratégica para acelerar a adoção deste novo paradigma, criando condições para que a indústria europeia se mantenha competitiva num contexto global cada vez mais exigente. PERSPETIVA PARA PORTUGAL: UMA OPORTUNIDADE ESTRATÉGICA Embora a adoção da Indústria 5.0 em Portugal ainda esteja numa fase inicial, o enquadramento europeu e os instrumentos de financiamento disponíveis — nomeadamente no âmbito do PRR e de programas europeus — criam condições favoráveis à sua implementação. O tecido industrial português, fortemente representado por PME no setor metalomecânico, poderá beneficiar particularmente de abordagens centradas na flexibilidade, personalização e eficiência de recursos. A adoção bem-sucedida dependerá, contudo, de três fatores críticos: • Investimento em qualificação de recursos humanos; • Modernização tecnológica; • Transformação cultural das organizações. CONCLUSÃO: MAIS DO QUE TECNOLOGIA, UMA NOVA VISÃO INDUSTRIAL A Indústria 5.0 não é apenas uma evolução tecnológica — é uma mudança de paradigma. Ao colocar o ser humano no centro, integrar sustentabilidade nos processos e reforçar a resiliência industrial, este modelo propõe uma visão mais equilibrada e duradoura para o futuro da produção. Para o setor metalomecânico, representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade. As empresas que conseguirem alinhar tecnologia, pessoas e estratégia estarão melhor posicionadas para competir num mercado global cada vez mais exigente. Num momento em que a indústria enfrenta pressões sem precedentes, a Indústria 5.0 surge não apenas como uma resposta, mas como um novo referencial para o desenvolvimento industrial sustentável e inteligente. n
FORMAÇÃO 23 MAQUINAGEM INTELIGENTE: FORMAÇÃO E INVESTIGAÇÃO J. Paulo Davim TEMA/LASI, Departamento de Engenharia Mecânica, Universidade de Aveiroorcid: https://orcid.org/0000-0002-5659-3111 e-mail: pdavim@ua.pt Pretende-se com este breve artigo de divulgação apresentar alguns tópicos de maquinagem inteligente que poderão ser aprofundados nos livros de circulação internacional indicados na lista de referências. Mostram-se também opções de formação e investigação na área da maquinagem: a nível básico, um curso de maquinagem CNC por e-learning; a nível avançado, mestrado, doutoramento ou estágios de pós-doutoramento, que podem ser realizados em ambiente académico ou industrial.
FORMAÇÃO 24 A maquinagem, ou usinagem como se refere no Brasil, provavelmente derivado do Francês usinage, é, talvez, o mais importante processo de fabrico utilizado na indústria de produção, com grande aplicação na indústria metalomecânica geral, no fabrico de moldes e matrizes, no fabrico de componentes para a indústria automóvel, aeronáutica e aeroespacial. Quase todas as peças obtidas por outros processos de fabrico (incluindo o fabrico aditivo) necessitam de maquinagem para garantir o acabamento de superfície e a precisão dimensional e geométrica requerida [1-3]. O valor acrescentado num produto com esta tecnologia é de grande importância económica, o que justifica divulgar uma nova abordagem para o fabrico por maquinagem inteligente. Este tipo de fabrico revela-se da maior importância para a inovação produtiva e o desenvolvimento económico com respeito pela sociedade, em linha com a transição digital e a indústria 5.0. MAQUINAGEM INTELIGENTE A maquinagem inteligente consiste na integração de sensores e inteligência artificial (IA) nos processos de maquinagem para otimizar o desempenho, a qualidade e a eficiência. Utiliza dados de sensores (por exemplo, de vibração, de força, de temperatura), para tomar decisões em tempo real, como o ajuste dos parâmetros de corte, o planeamento das trajetórias das ferramentas e a previsão do desgaste da ferramenta, o que conduz a produção mais precisa, rápida e económica. A simulação dos fenómenos físicos envolvidos nos processos de maquinagem tem sido considerada uma das principais atividades de investigação. Os processos de maquinagem são complexos e apresentam grandes desafios para serem simulados com precisão. As investigações neste campo utilizam abordagens que vão desde técnicas estatísticas tradicionais até métodos mais avançados, bem como o método dos elementos finitos (MEF). Além disso, têm-se também empregado tecnologias sofisticadas de inteligência artificial (IA), como ‘artificial neural networks’ (ANNs), ‘fuzzy logic’ e ‘neuro fuzzy systems’. Técnicas evolutivas, como a computação evolutiva, ‘simulation annealing’ (SA), ‘ant-colony optimization’ (ACO) e ‘particle swarm optimization’ (PSO), também desempenham um papel crucial na otimização de sistemas complexos, superando as limitações enfrentadas pelos métodos clássicos [4-6]. Mais recentemente, técnicas de Machine Learning (ML) e Deep Learning (DL) têm ganhado destaque, apresentando resultados muito interessantes [7]. Nos livros de circulação internacional apresentados na Figura 1 é possível apreciar diversos estudos que envolvem aplicações de métodos computacionais e estatísticos na maquinagem e aplicações de ML e DL na indústria. FORMAÇÃO E INVESTIGAÇÃO O curso básico, certificado, de Maquinagem CNC da UNAVE [8] (informações em https://www.unave.pt/ courses/show.html?id=14769), com e-Learning, funciona com uma estratégia de ensino personalizado à distância, combinando manuais de ensino com testes formativos, visionamento de vídeos tecnológicos selecionados e apoio tutorial individualizado. Destina-se sobretudo a Figura 1 – a) Statistical and Computational Techniques in Manufacturing, Springer; b) Hybrid Modeling and Optimization of Manufacturing: Combining Artificial Intelligence and Finite Element Method, Springer; c) Machine Learning in Industry, Springer. A) B) C)
FORMAÇÃO 25 licenciados ou mestres que pretendam exercer funções ligadas a maquinagem CNC, a engenheiros mecânicos, industriais, de produção, de materiais ou de áreas afins, gestores e técnicos da indústria ou ainda a qualquer interessado em obter formação nesta área. Pode ser realizado ao ritmo de aprendizagem do formando em qualquer lugar (por exemplo, em casa, no gabinete, na empresa) e tem como objetivo atualizar ou aperfeiçoar conhecimentos na área da maquinagem CNC para melhorar a produtividade e inovação na indústria. Fornece conhecimentos importantes, para quem exerce ou pretende exercer a sua atividade na área da moderna tecnologia de maquinagem, com ênfase na teoria do corte, no planeamento do fabrico, na programação CNC, e na maquinagem a alta velocidade. Trabalhos de investigação a nível de mestrado, doutoramento ou estágios de pós-doutoramento em maquinagem inteligente podem ser desenvolvidos no seio do grupo de investigação MACTRIB [9] em ambiente académico nos laboratórios da universidade ou em ambiente industrial, de acordo com a preferência do interessado. O plano de trabalhos a desenvolver com rigor científico e relevância prática pode ser ajustado em função dos interesses científicos e técnicos do candidato. SÍNTESE CONCLUSIVA Neste breve trabalho de divulgação descreveram-se alguns tópicos de maquinagem inteligente que podem ser aprofundados nos livros de circulação internacional apresentados na lista de referências. Por fim, foram apresentadas opções de formação e investigação na área da maquinagem, a nível básico um curso de Maquinagem CNC por e-Learning, ou a nível avançado, mestrado, doutoramento ou estágios de pós-doutoramento, que podem ser realizadas quer em ambiente académico quer em ambiente industrial. n REFERÊNCIAS 1. Davim, J.P. (2025). Fabrico por maquinagem sustentável e inteligente, Tecnometal, Nº 271, 56-58. https://www.metalportugal.pt/ p452-revista-tecnometal-pt 2. Davim, J.P. (ed.) (2008). Machining: fundamentals and recent advances. Springer: London, UK. https://link.springer.com/ book/10.1007/978-1-84800-213-5 3. Davim, J.P. (ed.) (2023). Nonconventional Machining. DE Gruyter: Berlin, Germany. https://www.degruyterbrill.com/document/ doi/10.1515/9783110584479/html?srsltid=AfmBOor_ebeo-pcNAOnXKu-eE2tnNbffGtmlyfIOTQ0AFcSUEOc0tNZV 4. Davim, J.P. (ed.) (2012). Statistical and Computational Techniques in Manufacturing. Springer: Heidelberg, Germany. https://link. springer.com/book/10.1007/978-3-642-25859-6 5. Kyratsis P., Tzotzis A., Davim, J.P. (2023). 3D FEA Simulations in Machining. Springer: Heidelberg, Germany. https://link.springer.com/ book/10.1007/978-3-031-24038-6 6. Quiza R., López-Armas O., Davim, J.P. (2012). Hybrid Modeling and Optimization of Manufacturing: Combining Artificial Intelligence and Finite Element Method. Springer: Heidelberg, Germany. https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-642-28085-6 7. Datta S., Davim, J.P. (ed.) (2022). Machine Learning in Industry. Springer: Heidelberg, Germany. https://link.springer.com/ book/10.1007/978-3-030-75847-9 8. Curso e-Learning, Maquinagem CNC, UNAVE, https://www.unave. pt/courses/show.html?id=14769 (acedido em 17/04/2026) 9. Machining and Tribology Research Group (MACTRIB), UAveiro, https://machining.web.ua.pt/ (acedido em 17/04/2026)
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