BM31 - InterMETAL

www.intermetal.pt 2026/4 31 Preço:11 € | Periodicidade: Trimestral | Outubro, Novembro, Dezembro 2026 VISITE-NOS NA STAND 2A14

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SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Luísa Santos Equipa Editorial Luísa Santos, Esther Güell, Nerea Gorriti Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas, Rui Amador redacao_intermetal@interempresas.net www.intermetal.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127299 Depósito Legal 455413/19 Distribuição total +4.100 envios. Distribuição digital a +3.400 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel Edição Número 31 – Outubro, Novembro, Dezembro 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.intermetal.pt/ EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da InterMETAL adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 4 EDITORIAL 5 Entrevista com Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI 10 Fabrico aditivo desafia a indústria a repensar o desenho e a produção de peças 16 Do laboratório para o céu: como a UNIPS e a Wipro Lauak estão a acelerar o fabrico aditivo metálico aeronáutico em Portugal 22 Pós-processamento ganha peso na industrialização do fabrico aditivo 26 Walter estreia duas máquinas para o fabrico e a medição de ferramentas de corte 30 DMG MORI aposta no torneamento integrado para elevar a produção de componentes médicos 34 Siemens quer reduzir até 50% o tempo de arranque das máquinas-ferramenta 38 Deibar aposta na proximidade e mostra tecnologia em contexto real 40 Fast-Hole EDM: a eletroerosão que permite fabricar microfuros para refrigerar turbinas aeronáuticas 44 Novas soluções de fio elevam o desempenho da eletroerosão 50 Entrevista com Javier Fernández, diretor de vendas da Mewa Portugal & Espanha 52 Uma grande indústria numa pequena aldeia 54 A Europa está a ficar para trás no combate aos PFAS – poderão os lasers ajudar a recuperar terreno? 56 Defesa, energia e dados em debate no Congresso dos 45 anos do IEP 58 A metrologia ótica está a transformar o controlo de qualidade numa ferramenta de prevenção 62 Hexagon integra análise metrológica em tempo real numa nova plataforma de qualidade 64 HandyScan EVO leva a metrologia 3D diretamente ao chão de fábrica 66 GiantEye alarga os limites da tomografia computorizada industrial 68 Em segurança se solda, corta e molda metais… [8] Espaços confinados – Medidas preventivas 71 DOSSIER: CONTROLO DE QUALIDADE

4 MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER ATUALIDADE EMAF 2027 já está em marcha A EMAF – Feira Internacional de Máquinas, Equipamentos e Serviços para a Indústria regressa à Exponor, de 1 a 4 de junho de 2027, com foco na inovação tecnológica, no desenvolvimento industrial e na criação de oportunidades de negócio. A organização já iniciou os preparativos e confirmou os primeiros expositores. Durante quatro dias, o certame reunirá fabricantes de máquinas e equipamentos, fornecedores de tecnologias industriais, empresas de automação e robótica, especialistas em software e entidades ligadas à investigação e desenvolvimento. Dirigida a gestores, engenheiros, técnicos especializados, investidores e outros profissionais do setor, a feira pretende promover a apresentação de soluções industriais, a partilha de conhecimento e o contacto entre empresas e decisores. A digitalização dos processos produtivos, a automatização e a evolução tecnológica da indústria transformadora deverão marcar a oferta expositiva, num evento que procura acompanhar as necessidades de modernização e competitividade das empresas industriais. Com a preparação já em curso, a EMAF 2027 pretende reforçar o seu papel como ponto de encontro dos principais intervenientes da indústria transformadora em Portugal, favorecendo a identificação de novas tecnologias, parcerias e oportunidades comerciais. SPM reúne especialistas para debater o futuro dos materiais O XXIII Congresso da Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM), designado Materiais 2027, realiza-se de 22 a 24 de março de 2027, nas instalações do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), sob o tema Materials for a Better Future. O congresso pretende estimular a colaboração entre a comunidade científica e aproximar os desenvolvimentos na ciência dos materiais dos desafios tecnológicos e ambientais que se colocam à indústria. O prazo para inscrição com taxa reduzida termina a 1 de janeiro de 2027. O encontro irá reunir investigadores, especialistas e profissionais para debater os avanços científicos e tecnológicos na área dos materiais, abrangendo tecnologias de processamento, manufatura aditiva, materiais funcionais e estruturais, aplicações energéticas, polímeros, compósitos, nanomateriais e soluções orientadas para a sustentabilidade. A inteligência artificial e as ferramentas digitais aplicadas aos materiais e aos processos produtivos também integram os temas previstos. O programa inclui sessões plenárias, conferências convidadas, apresentações orais, sessões de pósteres e uma escola de pós- -graduação. Os estudantes de doutoramento poderão concorrer a prémios para as melhores comunicações orais e apresentações em póster. Os 40 melhores abstracts serão publicação numa edição especial em livro. Está igualmente prevista a atribuição do Prémio de Carreira e Reconhecimento da SPM, destinado a distinguir contributos para o ensino, desenvolvimento, investigação, inovação e produção industrial na área dos materiais em Portugal. Mais informações em www.congressomateriais.pt

5 Nova FCT coordena projeto europeu de sete milhões de euros para a remanufatura A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (Nova FCT) coordena o projeto europeu Remanufacturing-X, financiado pelo programa Horizonte Europa com cerca de sete milhões de euros e uma duração de 36 meses. A iniciativa pretende acelerar a adoção de modelos de remanufatura e economia circular digital na indústria europeia. O projeto combina inteligência artificial, gémeos digitais, espaços de dados e passaportes digitais de produto para prolongar a vida útil de produtos e componentes, reduzir desperdícios e otimizar a utilização de recursos. As soluções serão demonstradas em cinco setores: têxtil, alimentar, maquinaria industrial, marítimo e baterias. Em Portugal, um dos projetos-piloto decorre na Cervejeira Letra, em Vila Verde, onde serão testadas tecnologias digitais para valorizar subprodutos da produção cervejeira e transformá-los em novos produtos, incluindo cervejas especiais e produtos alimentares certificados. A iniciativa pretende também reduzir o consumo de energia e matérias-primas, diminuir custos operacionais e reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento, demonstrando o potencial das tecnologias digitais para acelerar a transição industrial para modelos de produção mais circulares. EDITORIAL Estamos a chegar ao final de mais um ano (sim, também nos parece que ainda há pouco era janeiro) e de mais um período de grandes desafios para a metalomecânica nacional. Da instabilidade geopolítica às tarifas impostas pelos EUA e à travagem a fundo da indústria automóvel, não faltaram motivos de preocupação. Para um setor fortemente ligado aos mercados externos e integrado em cadeias de valor internacionais, as decisões tomadas além-fronteiras tiveram, naturalmente, consequências diretas na atividade das empresas. Mas, como tudo na vida, quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. No caso específico do nosso setor, essas janelas estão identificadas. A expansão dos centros de dados, impulsionada pela inteligência artificial e pela crescente procura de capacidade de computação, cria novas perspetivas para fabricantes de estruturas metálicas, componentes de precisão, sistemas de arrefecimento e equipamentos industriais. Também a aeronáutica e a defesa ganharam relevância no debate sobre a autonomia industrial europeia, criando oportunidades para fornecedores capazes de cumprir requisitos exigentes de qualidade, rastreabilidade, certificação e fiabilidade. Não será fácil ‘mudar o chip’ para atender a estes novos mercados de maior valor acrescentado. No entanto, a indústria portuguesa tem conhecimento técnico, experiência exportadora e capacidade de engenharia para aproveitar estas oportunidades. O desafio está em transformar essas competências em investimento, escala e acesso a novas cadeias de fornecimento, sem perder de vista a rentabilidade e a sustentabilidade dos negócios. No que toca ao investimento, existem vários incentivos disponíveis, como nos explica Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI, na entrevista à InterMetal que pode ler na página 10 desta revista. Neste número, entre outros temas, incluímos um exemplo de colaboração entre a academia e a indústria num projeto de fabrico aditivo; a reportagem do Open Day I6.0, realizado na Erofio e dedicado, precisamente, a esta tecnologia; diversa informação sobre novidades no campo das máquinas-ferramenta; um exemplo de aplicação de eletroerosão na aeronáutica; e uma solução laser para substituir os PFAS. Destaque ainda para a reportagem do congresso comemorativo dos 45 anos do IEP, dedicado ao tema ‘Defesa, Indústria e Autonomia Estratégica’. Nesta que é a última edição de 2026, resta-nos desejar aos nossos leitores e parceiros um excelente fim de ano e que 2027 vos traga bons ventos. Da nossa parte, podem continuar a contar com a divulgação de tendências de mercado, novas tecnologias, projetos internacionais e casos de sucesso que podem servir de inspiração para novos voos. Ah, e se passar pela Expometal, visite-nos nos no stand 2D11a para dois dedos de conversa e um exemplar gratuito desta revista. Até lá, boa leitura! Fecha-se uma porta, abre-se uma janela

6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Bruxelas propõe alargar apoios estatais à indústria siderúrgica A Comissão Europeia quer incluir o setor do aço nas regras europeias que permitem conceder auxílios estatais a empresas não financeiras em dificuldades, abrindo caminho a apoios públicos para operações de recuperação e reestruturação de siderurgias, sob condições específicas. A proposta integra a revisão das orientações europeias relativas aos auxílios de emergência e reestruturação, em vigor desde 2014. Atualmente, o setor siderúrgico está excluído deste regime, que estabelece os critérios para compatibilizar os apoios públicos com as regras de concorrência da União Europeia. A revisão pretende adaptar a política europeia de concorrência às atuais dificuldades económicas e industriais. A eventual inclusão da siderurgia poderá dar aos Estados-membros maior margem para apoiar empresas em dificuldades financeiras, desde que apresentem planos de reestruturação adequados e cumpram as condições europeias aplicáveis. A medida surge numa fase de forte pressão sobre a indústria europeia do aço, confrontada com o excesso de capacidade produtiva mundial e desafios de competitividade. A Comissão prevê adotar as regras revistas até ao final de 2026, antes de expirar o enquadramento atual, a 31 de dezembro. The Bright World of Metals renova identidade para 2027 O conjunto de feiras The Bright World of Metals regressa a Düsseldorf, na Alemanha, de 21 a 25 de junho de 2027, com uma nova identidade visual, serviços digitais reforçados e um programa orientado para os desafios da indústria metalúrgica. O evento integra os certames Gifa, Metec, Thermprocess e Newcast, que manterão as respetivas áreas de especialização sob o lema comum ‘Explore the Power of Four’. Entre as novidades está a ferramenta digital FairMatch, que permitirá a expositores e visitantes identificar potenciais parceiros comerciais e agendar reuniões antes da feira. A organização prevê também novos serviços de comunicação e conteúdos sobre descarbonização, eficiência energética, inteligência artificial, fábrica inteligente e economia circular. O programa técnico será igualmente reforçado, com maior participação de fabricantes de máquinas e instalações. O Thermprocess Forum passará a designar-se Thermprocess Forum & ecoMetals Hub, dedicando-se à eficiência energética, à descarbonização e às tecnologias aplicadas aos processos térmicos. A edição de 2027 incluirá ainda um evento inaugural para promover o diálogo entre representantes políticos e industriais, refletindo as prioridades tecnológicas e ambientais que estão a transformar a cadeia de valor metalúrgica.

7 ATUALIDADE 360 Tech Industry estreia-se em Lisboa com foco na tecnologia industrial A feira profissional, organizada pela Exponor, realiza-se a 26 e 27 de novembro de 2026, no Pavilhão Carlos Lopes, reunindo empresas e profissionais ligados à produção, engenharia e manutenção. O certame apresenta soluções de automação, robótica, inteligência artificial, impressão 3D e digitalização industrial, com demonstrações de equipamentos, apresentações técnicas e debates sobre Indústria 4.0 e 5.0, sustentabilidade, cibersegurança e manutenção preditiva. A iniciativa inclui ainda o HubTech by 360 Tech Industry, dedicado a startups tecnológicas com aplicações industriais, promovendo o contacto entre empresas emergentes, fornecedores e decisores. Com esta estreia na capital, a organização pretende aproximar a oferta tecnológica das necessidades concretas da indústria, facilitando o acesso a soluções para aumentar a produtividade, melhorar a eficiência operacional e acelerar a transformação digital. A feira destina-se a vários setores, incluindo metalomecânica, eletrónica, energia, construção, indústria alimentar, farmacêutica e automóvel. Partners de: Turbinas Resistências Cestas Tubos radiantes Muflas Ferramentas Fornos de baixa e alta temperatura Equipamentos para o tratamento térmico Consúltanos! www.proycotecme.com

8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Portugal conquista prata em Robot Systems Integration no WorldSkills Shanghai 2026 Portugal conquistou a medalha de prata na modalidade de Robot Systems Integration da 48.ª edição do WorldSkills, realizada em Xangai, na China, entre 22 e 27 de setembro. Diogo Pinto e Loris Sgroj, alunos do Cenfim – Núcleo de Amarante, alcançaram o segundo lugar entre 20 equipas internacionais, numa competição que reuniu jovens profissionais de mais de 70 países e regiões. Quantal investe sete milhões de euros em nova unidade industrial A prova avaliou competências de programação, integração de sistemas robóticos e resolução de desafios de automação, exigindo também trabalho em equipa, capacidade de adaptação e resistência à pressão. A China conquistou o ouro, partilhado por Portugal e Brasil ficou o segundo lugar, enquanto o Japão recebeu o bronze. O resultado prolonga o percurso de sucesso da dupla, que venceu o Skills Portugal em 2024 e conquistou o ouro no EuroSkills Herning, em 2025. A distinção evidencia a qualidade da formação profissional portuguesa numa área cada vez mais relevante para a indústria transformadora, onde a integração de robôs e a automatização dos processos produtivos exigem técnicos altamente qualificados. A Fanuc apoiou a competição, proporcionando contacto com tecnologias avançadas de robótica industrial. A Quantal inaugurou uma terceira unidade industrial em Vila do Conde, num investimento de sete milhões de euros. Com uma área de 6.000 m², a nova fábrica permitirá aumentar a capacidade produtiva em mais de 55% e reforçar a resposta a novos contratos internacionais. Fundada em 1955, a empresa de metalomecânica de precisão emprega cerca de 300 trabalhadores e produz componentes metálicos para a indústria automóvel e fabricantes de máquinas e equipamentos industriais. Mais de 95% da produção destina-se à exportação, sobretudo para mercados europeus. Adquirida em 2024 pela Horizon Equity Partners, a Quantal pretende elevar a faturação dos atuais 25 milhões de euros para entre 40 e 50 milhões de euros até 2030. A empresa beneficiou também de um financiamento de 12,25 milhões de euros através do programa Consolidar, associado ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para modernizar equipamentos e reforçar a capacidade produtiva das três unidades. O investimento deverá consolidar a capacidade de resposta da empresa às exigências dos clientes internacionais, num mercado onde a precisão, a qualidade e o cumprimento dos prazos são fatores determinantes.

ENTREVISTA 10 RODRIGO PASSOS, DIRETOR DE CAPACITAÇÃO EMPRESARIAL DO IAPMEI “O ponto de partida deve ser o projeto e não o incentivo” A indústria metalomecânica portuguesa tem competências para responder a mercados cada vez mais exigentes, mas precisa de investir na modernização, qualificar pessoas e desenvolver produtos de maior valor acrescentado. Nesta entrevista, Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI, aborda os instrumentos de apoio disponíveis para concretizar estes objetivos e destaca as oportunidades associadas à defesa, à transição energética e às novas prioridades industriais europeias. O desafio passa por transformar o investimento em ganhos efetivos de produtividade e competitividade. O IAPMEI disponibiliza vários instrumentos de apoio ao investimento, à inovação e à modernização empresarial, no âmbito do Portugal 2030 e de outros programas. Para uma empresa metalomecânica que pretenda investir em novos equipamentos, automação, digitalização ou aumento da capacidade produtiva, quais são hoje os principais instrumentos a considerar e como pode identificar o mais adequado ao seu projeto? Existem instrumentos de apoio relevantes para acompanhar esses investimentos, e a metalomecânica tem demonstrado capacidade para os aproveitar. Segundo os nossos dados internos, o setor representa mais de 20% das candidaturas submetidas ao IAPMEI, à data, no Portugal 2030. É um sinal encorajador de uma indústria que procura crescer e modernizar-se. As necessidades das empresas são diversas. Há aquelas que querem aumentar a sua capacidade produtiva, outras Luísa Santos

ENTREVISTA 11 que pretendem desenvolver novos produtos, automatizar operações, reduzir consumos ou entrar em novos mercados. Os instrumentos de ‘Inovação Produtiva’, ‘I&D Empresarial’, ‘Qualificação e Internacionalização das PME’ e os apoios à ‘Descarbonização e Eficiência Energética’ podem acompanhar diferentes dimensões desse percurso, de acordo com as condições de cada aviso. O ponto de partida deve ser o projeto e não o incentivo. O primeiro passo é perceber o que a empresa pretende alcançar. A partir daí, torna-se mais fácil identificar o instrumento adequado, o calendário e a forma de financiar o investimento. Pela proximidade às empresas e pelo conhecimento dos instrumentos, considero que o IAPMEI é um interlocutor preferencial para fazer a ponte entre as necessidades empresariais e as respostas das políticas públicas. A nossa Rede de Centros de Atendimento Empresarial, com presença descentralizada no país, é uma porta de entrada para essa conversa. Na descarbonização, eficiência energética e economia circular, onde estão as principais oportunidades para a metalomecânica? Estamos a falar de investimentos que podem melhorar simultaneamente o desempenho ambiental e a competitividade da empresa, logo existem oportunidades muito concretas. Na eficiência energética, isso pode passar pela otimização de motores, sistemas de ar comprimido, fornos ou produção de frio, pela recuperação de calor ou pela monitorização dos consumos. Conhecer melhor onde e como se utiliza a energia permite identificar desperdícios e fundamentar decisões de investimento. O Sistema de Incentivos à Transição Climática e Energética contempla apoios à eficiência energética e à descarbonização. O enquadramento de cada projeto depende das condições e dos períodos de candidatura dos avisos. Na economia circular, há também um potencial importante: utilizar melhor a matéria-prima, reduzir sucata e rejeições, recuperar componentes e prolongar a vida útil dos equipamentos. O apoio mais adequado dependerá da natureza da intervenção, que poderá envolver inovação, investimento produtivo ou qualificação. Logo diria que o diagnóstico assume um papel preponderante no processo, ajudando a construir um projeto com resultados claros e a procurar o enquadramento mais adequado. Tecnologias mais disruptivas, como o fabrico aditivo, a inteligência artificial, a robótica e os sistemas avançados de controlo, são cada vez mais vistas como determinantes para o aumento da competitividade. Que condições devem reunir os projetos para que sejam reconhecidos como investimentos com potencial de inovação e criação de valor? A tecnologia cria valor quando responde a uma necessidade da empresa e pode ser integrada na sua atividade. Uma solução pode ser muito avançada, mas o investimento deve fazer sentido para o produto, para o processo e para o mercado a que se destina. Começaria por três perguntas: que problema queremos resolver, o que esperamos melhorar e de que condições precisamos para o conseguir? Depois é importante perceber a maturidade da solução. Podemos estar perante um projeto que ainda exige investigação e desenvolvimento, uma tecnologia que precisa de ser testada ou uma solução já pronta para aplicação industrial. Cada situação pede um percurso diferente. Há também uma dimensão de capacitação que considero decisiva. A empresa precisa de pessoas preparadas para utilizar a tecnologia, organizar os dados, adaptar processos e assegurar a sua continuidade. É nessa combinação entre tecnologia, competências e organização que vejo maior potencial. O investimento deve traduzir-se em resultados: maior produtividade, melhor qualidade, menos desperdício, capacidade para produzir peças mais complexas ou uma resposta mais rápida ao cliente. Mas nem todos os investimentos representam uma inovação radical. Como podem os instrumentos de apoio acomodar projetos de modernização industrial que, embora incrementais, sejam determinantes para a produtividade e a competitividade das empresas? Há espaço para valorizar o percurso das empresas que querem melhorar progressivamente os seus processos. A inovação industrial acontece muitas vezes através de melhorias sucessivas que, em conjunto, transformam a capacidade competitiva da empresa. Uma empresa pode inovar ao integrar operações numa célula automatizada, introduzir novas tecnologias de fabrico, digitalizar o controlo da produção ou melhorar a rastreabilidade e a qualidade. Não será necessário inventar uma tecnologia para realizar um investimento inovador. O enquadramento depende, naturalmente, do instrumento. Na Inovação Produtiva, a empresa deve fundamentar a

ENTREVISTA 12 inovação e demonstrar a transformação que o investimento permite alcançar. A simples substituição de equipamento não garante, por si só, esse enquadramento. O mais útil é conseguir explicar o antes e o depois: o que muda na produção, na qualidade, nos custos, na capacidade ou na resposta ao mercado. Vale a pena olhar para as oportunidades de melhoria da própria empresa. Um projeto bem fundamentado, construído a partir de uma necessidade real, pode ser um passo importante de crescimento. O reforço da capacidade industrial europeia no domínio da defesa está na ordem do dia. Que oportunidades concretas existem para as empresas portuguesas e que instrumentos de apoio podem facilitar a sua entrada nesta cadeia de valor, nomeadamente através da inovação, do investimento produtivo, da certificação e da internacionalização? Existe hoje uma oportunidade muito concreta. A Europa está a reforçar a sua capacidade industrial de defesa e isso abre espaço para empresas portuguesas que já possuem competências industriais relevantes, mesmo que até hoje não tenham trabalhado diretamente para este mercado. A metalomecânica portuguesa tem competências em maquinação de precisão, engenharia, estruturas, componentes, automação e produção de elevada exigência que podem ser aplicadas nestas novas cadeias de fornecimento. E estão já a surgir instrumentos especificamente dirigidos a esta prioridade. No Portugal 2030 temos já previsto o Investimento Empresarial Produtivo para a Defesa, especificamente no Alentejo 2030, e orientado para o reforço das capacidades industriais neste domínio. Ao nível europeu existem também oportunidades crescentes. O novo programa AGILE dispõe de 115 milhões de euros e pretende, já no início de 2027, apoiar PME, incluindo startups e empresas em expansão, no desenvolvimento de tecnologias de defesa emergentes e disruptivas, designadamente aproximando a inovação da capacidade operacional e facilitando também ensaios e certificação. Isto mostra que existe espaço para Portugal. Mas entrar na cadeia de valor da defesa exige mais do que capacidade produtiva. Exige qualidade, certificação, rastreabilidade, capacidade tecnológica, segurança e capacidade para trabalhar em cadeias de fornecimento internacionais. Por isso, a oportunidade não deve ser vista apenas como a possibilidade de aceder a um novo apoio. Deve ser encarada como uma oportunidade para qualificar a indústria portuguesa e posicioná-la em cadeias europeias de maior exigência e valor acrescentado. Os centros tecnológicos e as universidades têm um papel importante no apoio à inovação industrial. Como pode o IAPMEI ajudar as PME a aproximarem-se destes parceiros de I&D? O primeiro passo é a empresa conseguir formular o desafio que pretende resolver. Pode ser desenvolver um material, melhorar um processo, testar uma solução ou criar um produto. Quanto mais claro for esse desafio, mais fácil será identificar as competências necessárias. O IAPMEI pode ajudar a orientar essa procura e a enquadrar as possibilidades de colaboração e de apoio. A proximidade às empresas é importante precisamente porque permite começar pela necessidade empresarial. A experiência das Agendas Mobilizadoras mostra também uma evolução importante na forma como esta cooperação pode acontecer. Recordo que estamos a falar de 51 Agendas, perto de 900 empresas e mais de 200 outras entidades, incluindo universidades e centros tecnológicos. São consórcios que juntam competências em torno de objetivos comuns de desenvolvimento, demonstração e industrialização. Essa experiência tem também aprendizagens que importa aproveitar para tornar a colaboração mais acessível a outras empresas. Nem todas as PME precisam de integrar um consórcio desta dimensão. Os instrumentos de I&D Empresarial permitem explorar outras formas de colaboração. Uma empresa não precisa de reunir todo o conhecimento dentro de portas. Precisa de saber o que procura e de ter capacidade para trabalhar com quem a pode ajudar. Quais são os principais critérios que determinam a elegibilidade de um projeto industrial? Para além da dimensão do investimento e da situação económico-financeira da empresa, que fatores podem fazer a diferença na avaliação de uma candidatura? Eu distinguiria duas dimensões: cumprir as condições de acesso e demonstrar o mérito do projeto. As condições de elegibilidade dizem respeito à empresa e ao investimento e estão definidas nos regulamentos e nos avisos. Devem ser verificadas desde o início, para que a preparação assente num enquadramento adequado. O mérito deve ser demonstrado através de uma relação clara entre o diagnóstico, os objetivos, os investimentos

ENTREVISTA 13 e os resultados esperados. Os critérios estão definidos em cada aviso e a aprovação depende também da posição relativa das candidaturas e dos recursos disponíveis. A empresa deve conseguir explicar de onde parte, que oportunidade pretende aproveitar, por que escolheu aquele investimento e que diferença espera alcançar. Esta preparação é útil para além da candidatura. Obriga a testar pressupostos, a perceber necessidades e a tornar as decisões mais claras. Por isso, empresas deverão procurar informação numa fase inicial já que o esclarecimento de esclarecer dúvidas a pode ajudar a preparar um projeto mais consistente e a evitar dificuldades durante a execução. A aprovação de um incentivo não elimina a necessidade de a empresa assegurar capitais próprios, financiar despesas durante a execução e cumprir os prazos previstos. Que soluções existem para facilitar o acesso ao financiamento e reduzir as dificuldades de tesouraria associadas aos projetos apoiados? E que cuidados devem as PME ter antes de assumir compromissos de investimento? O incentivo pode dar um contributo importante para viabilizar ou reforçar um investimento, mas não resolve, por si só, o financiamento do projeto. Deve ser integrado num plano financeiro que cubra todo o projeto e o seu calendário de execução. Isso significa perceber quanto a empresa vai investir, que recursos próprios pode mobilizar, de que financiamento externo necessita e quando prevê receber o apoio. É igualmente importante acomodar despesas não elegíveis, eventuais desvios e necessidades de fundo de maneio. Há soluções que podem complementar os incentivos, incluindo crédito e garantias, nomeadamente através dos instrumentos do Banco Português de Fomento, de acordo com as respetivas condições. O momento de assumir compromissos também merece atenção, devido às regras aplicáveis ao efeito de incentivo. É uma das razões para procurar esclarecimento antecipadamente. Com um projeto bem preparado e uma estrutura financeira adequada, o apoio público pode ser uma alavanca importante para o crescimento. A indústria metalomecânica portuguesa está fortemente ligada às cadeias de fornecimento internacionais, mas enfrenta concorrência crescente em preço, tecnologia e rapidez de resposta. Que apoios podem ajudar as empresas a diversificar mercados, desenvolver produtos de maior valor acrescentado e integrar novas cadeias de fornecimento europeias, incluindo setores como a energia, a mobilidade e a defesa? Os apoios podem acompanhar as várias etapas do percurso de diversificação de mercados e da entrada em cadeias de fornecimento de maior valor acrescentado: desenvolver um produto, adaptar o processo produtivo, reforçar competências, obter qualificações relevantes e preparar a abordagem comercial. Os instrumentos de I&D, Inovação Produtiva, Qualificação e Internacionalização podem responder a necessidades diferentes, sempre em função do projeto e das condições de acesso. “O investimento deve fazer sentido para o produto, para o processo e para o mercado a que se destina”

ENTREVISTA 14 Na minha perspetiva, a metalomecânica portuguesa tem oportunidades para valorizar competências em engenharia, qualidade, flexibilidade e produção de elevada exigência. Uma empresa pode utilizar o conhecimento que já possui do mercado para responder a novos clientes nas áreas da energia, mobilidade ou defesa. As feiras e as ações de prospeção podem ser importantes dentro dessa estratégia. Gostaria de ver cada vez mais empresas a usar os apoios para dar esse passo: desenvolver soluções de maior complexidade, reforçar a relação com os clientes e conquistar uma posição de maior valor nas cadeias internacionais. Muitas PME industriais não dispõem de equipas dedicadas à preparação de candidaturas ou à gestão de projetos financiados. Que apoio pode o IAPMEI prestar nesta fase e que recomendações deixaria aos empresários para anteciparem necessidades, prepararem projetos consistentes e aproveitarem melhor os instrumentos disponíveis? Podem começar pela nossa Rede de Centros de Atendimento Empresarial, que tem presença descentralizada no país. Essa proximidade é uma característica que valorizo muito: permite às empresas procurar informação e orientação sobre as suas necessidades e os instrumentos que podem fazer sentido. Não é preciso chegar com uma candidatura preparada. É útil chegar com uma ideia do investimento, do objetivo pretendido, da localização, do calendário e da forma como se pensa financiá-lo. Mesmo quando o projeto ainda está numa fase inicial, este enquadramento pode ajudar a identificar questões que precisam de ser trabalhadas. Se houver necessidade de apoio especializado, a empresa pode recorrer a competências externas. O essencial é que o empresário continue envolvido nas decisões e conheça os investimentos e as metas que constam da candidatura. Olhando para o horizonte de 2030, quais deverão ser as principais prioridades dos instrumentos de apoio à indústria portuguesa? Que áreas de investimento considera mais importantes para reforçar a autonomia tecnológica, a produtividade e a resiliência das empresas? E como poderão evoluir os critérios de apoio para acompanhar as transformações industriais e as prioridades europeias? Olhando para 2030, eu diria que vamos ter de evoluir para uma política de incentivos mais seletiva e mais orientada para resultados e para prioridades estratégicas. Mas seletividade não deve significar necessariamente apoiar apenas grandes projetos ou inovação radical. Significa ser mais exigente naquilo que esperamos obter em resultado do apoio público. Na minha perspetiva, devemos continuar a investir na produtividade, na capacitação das pessoas, na digitalização, na descarbonização e no acesso aos mercados. São dimensões que se reforçam mutuamente e que devem ser pensadas de forma articulada. A Europa está também a dar maior atenção à capacidade tecnológica, à segurança económica e à redução de dependências estratégicas. Vejo aí oportunidades para a indústria portuguesa desenvolver competências e ocupar novas posições nas cadeias de valor. A lógica dos avisos lançados no âmbito da Plataforma STEP é um bom exemplo dessa evolução. Já não se trata apenas de perguntar se um projeto é inovador. Perguntamos também se contribui para desenvolver ou fabricar tecnologias críticas, reforçar as respetivas cadeias de valor ou reduzir dependências estratégicas europeias. Isto significa que áreas como as tecnologias digitais e deep tech, tecnologias limpas e eficientes na utilização dos recursos e biotecnologias, bem como as respetivas cadeias de valor, tenderão a assumir uma importância crescente. Gostaria que os instrumentos evoluíssem com uma orientação cada vez mais clara para a transformação que permitem alcançar. Isso implica olhar para a situação de partida da empresa, para os resultados do investimento e para o contributo específico do apoio público. Essa orientação deve, contudo, reconhecer diferentes percursos empresariais. Há projetos de grande dimensão, mas há também investimentos mais pequenos que podem representar uma mudança decisiva para uma PME. Defendo também uma melhor articulação entre incentivos, financiamento, garantias, I&D, formação e internacionalização. Para a empresa, estas necessidades fazem parte do mesmo percurso de crescimento. As respostas públicas devem procurar acompanhá-lo com essa visão de conjunto. Que mensagem final gostaria de deixar aos nossos leitores? Gostaria de deixar uma mensagem de confiança. Há competências na indústria portuguesa, há empresas a investir e existem instrumentos de apoio que podem ajudar a concretizar novos projetos. Os apoios públicos existem para acompanhar a ambição empresarial, e as empresas devem continuar a recorrer a eles para inovar, modernizar e crescer. n

16 EVENTO Fabrico aditivo desafia a indústria a repensar o desenho e a produção de peças O fabrico aditivo está a transformar as possibilidades de desenvolvimento na indústria de moldes e plásticos, mas a sua aplicação exige mais do que tecnologia: implica repensar o desenho das peças, os processos de produção e a forma como se cria valor industrial. Foi esta a ideia central do Open Day i6.0 – Indústria Sustentável, que reuniu empresas, entidades públicas e especialistas a 9 de outubro, nas instalações do Grupo Erofio, na Jardoeira, na Batalha. Marta Clemente Promovida pela Agência para a Competitividade e Inovação (IAPMEI), a iniciativa Open Days i6.0 – Indústria Sustentável procura dar visibilidade a boas práticas de digitalização nas empresas portuguesas, aproximando a modernização dos processos produtivos da eficiência das organizações. Na Erofio, o encontro, que contou com a presença do secretário de Estado da Economia, João Ferreira, centrou-se no papel do fabrico aditivo na passagem do design à produção, com a partilha da experiência do grupo industrial e uma mesa-redonda que reuniu representantes do IAPMEI, da WeAdd, da PrimeOut e do próprio grupo organizador. DO DESENHO À DECISÃO INDUSTRIAL Na sessão de abertura, Manuel Novo, administrador do Grupo Erofio, destacou a necessidade de inovar para manter a competitividade da indústria portuguesa. Com mais de 35 anos de De esquerda para a direita: Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI, Paulo Mauritti, vogal do Conselho Diretivo do IAPMEI, e Manuel Novo, administrador do Grupo Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

17 EVENTO percurso na área dos moldes, o grupo tem investido em novas tecnologias e competências, uma evolução que, segundo o responsável, exige disponibilidade para explorar caminhos diferentes. “Para continuar a competir, não basta fazer bem aquilo que sabemos fazer. É preciso ter a coragem de inovar, de investir e procurar novos caminhos”, afirmou. O fabrico aditivo foi apresentado como uma das áreas em que a empresa procura transformar a experiência industrial acumulada em novas oportunidades de negócio. A importância de aproximar o conhecimento tecnológico da produção esteve também no centro da intervenção de Paulo Mauritti, vogal do Conselho Diretivo do IAPMEI. O responsável salientou o potencial do fabrico aditivo para converter modelos digitais em peças e componentes, utilizando o material necessário à sua produção. Mais do que uma tecnologia de fabrico, considerou-a uma ferramenta estratégica para aproximar o desenho do produto da sua concretização industrial e desenvolver soluções com maior valor para as empresas e para a economia. Já João Ferreira, secretário de Estado da Economia, enquadrou a transformação industrial num conjunto mais vasto de desafios, da utilização dos dados à automação, passando pela qualificação dos trabalhadores e pela internacionalização. A recolha de informação, defendeu, só ganha verdadeiro valor quando é analisada e utilizada para apoiar decisões: “Sem dados, não conseguimos dar o passo seguinte, que é introduzir este nível de inteligência”, afirmou João Ferreira, sustentando a importância de recolher, filtrar e analisar informação para apoiar a tomada de decisões. O governante sublinhou também que “decidir depressa não é decidir à pressa”, associando a agilidade dos processos à necessidade de manter o rigor e a qualidade. A inovação deve, por isso, traduzir-se em ganhos concretos de eficiência e competitividade, num contexto em que as empresas portuguesas enfrentam concorrência internacional e precisam de encontrar formas de acrescentar valor ao que produzem. O governante chamou ainda a atenção para a importância da colaboração entre empresas, entidades públicas e sistema científico e tecnológico, bem como para a necessidade de relações de confiança entre a Administração e o tecido empresarial. A simplificação dos processos e a capacidade de resposta às necessidades das empresas foram outros dos aspetos abordados. REPENSAR OS MOLDES PARA TIRAR PARTIDO DO FABRICO ADITIVO A apresentação do Grupo Erofio trouxe a discussão para o terreno industrial, ao mostrar como o fabrico aditivo pode ir além da produção de peças e contribuir para repensar moldes, componentes e processos. Cláudia Novo, administradora do grupo, começou por enquadrar esta aposta no percurso da empresa, que nasceu na área dos moldes, alargou a atividade à injeção de plásticos em 2000 e foi acrescentando novas competências ao longo dos anos. Hoje, as três unidades industriais – dedicadas aos moldes, à injeção e ao fabrico aditivo – trabalham de forma complementar, conjugando diferentes processos e conhecimentos. Para Cláudia Novo, a inovação só tem verdadeiro impacto quando se traduz em valor para o cliente: “A verdadeira medida da inovação é o valor que conseguimos gerar com ela”, referiu. Não basta incorporar equipamentos ou tecnologias mais avançadas: é necessário melhorar o desempenho, controlar os custos e utilizar os recursos de forma mais eficiente. A experiência acumulada no desenvolvimento e fabrico de moldes, explicou, permite ao grupo compreender não só como produzir uma peça, mas também como esta vai funcionar e ser integrada no processo industrial. É essa visão de conjunto que pode fazer a diferença na aplicação do fabrico aditivo. Pedro Lourenço, CEO do Grupo Erofio, aprofundou esta mesma ideia através de exemplos práticos. A mudança começa na própria conceção: enquanto os métodos convencionais partem de um bloco de material que é trabalhado até obter a geometria pretendida, o fabrico aditivo permite acrescentar João Ferreira, secretário de Estado da Economia. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

18 EVENTO material apenas onde é necessário. Esta diferença abre novas possibilidades para o desenho dos componentes, que fica menos condicionado pelas limitações das ferramentas e mais orientado para a função de cada peça. “O objetivo não é simplesmente imprimir a peça, tem de encontrar uma espécie de fabrico mais eficiente para reforçar a produtividade”, afirmou o CEO do Grupo Erofio. Um dos exemplos apresentados foi o da refrigeração conformal dos moldes, que permite criar canais adaptados à geometria da peça e aproximá-los das zonas onde é necessário retirar calor. Num dos casos partilhados, esta solução permitiu reduzir em 36% o tempo de ciclo. O benefício, salientou Pedro Lourenço, não se resume à rapidez: a geometria dos canais pode também contribuir para melhorar a qualidade da peça e a estabilidade do processo de moldação. A apresentação foi mais longe, mostrando como o fabrico aditivo pode levar à revisão de componentes e até da arquitetura global de um molde. O conceito InnovaIQ, desenvolvido no âmbito da agenda InnovaEco, combina fabrico aditivo, otimização da geometria, refrigeração conformal e simplificação estrutural. Segundo os resultados apresentados, a solução permitiu reduzir em 75% o peso do molde e em 35% o consumo de energia, bem como diminuir o tempo de ciclo de produção. Pedro Lourenço sublinhou, contudo, que estes ganhos não resultam apenas da impressão 3D, mas da forma como foram repensados em conjunto a estrutura, a refrigeração e o processo de moldação. A mensagem deixada pelo responsável foi clara: o potencial da tecnologia depende da capacidade de a integrar desde o início do desenvolvimento, considerando o desenho, os suportes, os tratamentos e as operações de acabamento necessárias. A combinação entre diferentes tecnologias e a sua adequação a cada aplicação são, por isso, determinantes. O DESAFIO DE TRANSFORMAR CONHECIMENTO EM VALOR INDUSTRIAL A mesa-redonda moderada por Luísa Santos, das revistas InterMetal e InterPlast, trouxe para o debate uma questão central para a indústria: como transformar as competências já existentes em Portugal numa cadeia de valor competitiva no fabrico aditivo. Rodrigo Passos, da direção de Capacitação Empresarial do IAPMEI, considerou que o país já dispõe de conhecimentos sólidos em engenharia, automação, maquinação e desenvolvimento de produto, mas precisa de os articular melhor. “O que falta é interligar todas estas competências e ganhar escala”, resumiu. Para o responsável do IAPMEI, um dos principais desafios é fazer a passagem dos protótipos para uma produção industrial consistente, com qualidade assegurada e custos competitivos. A tecnologia, por si só, não garante um negócio viável: é necessário perceber em que aplicações oferece vantagens face aos métodos convencionais e se essas vantagens têm valor para o cliente. A cooperação entre empresas foi outro dos pontos destacados, numa cadeia em que dificilmente uma única organização reúne todas as competências necessárias. A necessidade de conhecer melhor as possibilidades da tecnologia esteve também em evidência na intervenção Da esquerda para a direita: Luísa Santos, diretora das revistas InterMetal e InterPlast, Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI, Agostinho Carvalho, CEO e responsável de investigação e desenvolvimento da WeAdd, Carina Ramos, CEO da PrimeOut, e António Silva, responsável de investigação, desenvolvimento e negócio do Grupo Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

19 EVENTO de Carina Ramos, CEO da PrimeOut. Para a responsável, a indústria tem de estar disponível para mudar e aprender com experiências que já estão mais consolidadas noutros mercados. A formação e o contacto com novas práticas são importantes, mas também é preciso criar espaço para pensar as aplicações e identificar oportunidades concretas. A sensibilização para o fabrico aditivo está a crescer, salientou, embora a sua integração nos processos produtivos dependa de uma maior abertura à mudança. António Silva, responsável de investigação, desenvolvimento e negócio do Grupo Erofio, colocou a tónica na formação e na valorização da engenharia. Portugal tem conhecimento em áreas como a engenharia e os materiais, mas esse saber continua, em parte, disperso. Para o responsável, a competitividade não pode assentar apenas na utilização de equipamentos, cujo custo não difere necessariamente entre países. “Se queremos criar valor, temos de abrir a cadeia de valor, temos de vender a engenharia, acima de tudo”, afirmou, realçando que o contributo das empresas deve começar na fase de desenho e desenvolvimento do produto. A experiência industrial também exige uma abordagem estruturada. António Silva alertou para o risco de tratar cada peça como uma experiência isolada, sublinhando que a passagem à produção requer resultados repetíveis e processos controlados. “É preciso deixar de transformar cada peça numa experimentação. Temos de conseguir ter método”, afirmou. O fabrico aditivo pode abrir novas possibilidades, mas não elimina as exigências de validação nem é adequado a todas as aplicações. Esta ideia foi reforçada por Agostinho Carvalho, CEO e responsável de investigação e desenvolvimento da WeAdd, que descreveu o fabrico aditivo como uma tecnologia complementar, e não como uma substituição generalizada dos processos convencionais. A dificuldade está em perceber onde faz sentido aplicá-lo e que vantagens pode oferecer em cada contexto. “É preciso contextualizá-lo”, advogou, salientando que a escolha depende das necessidades do produto, dos volumes, dos custos e do desempenho pretendido. O conhecimento das pessoas será decisivo para adaptar a tecnologia a cada aplicação, em vez de procurar resolver todos os problemas com o mesmo processo. O debate abordou ainda as oportunidades no setor da defesa, onde a rapidez de resposta e a produção de componentes especializados podem ser relevantes. Carina Ramos, CEO da PrimeOut, identificou, contudo, uma dificuldade anterior à própria tecnologia: a falta de ligação entre as necessidades dos utilizadores e as capacidades da indústria nacional. Segundo explicou, as forças de defesa precisam de peças para a manutenção e reparação de equipamentos, mas nem sempre conhecem as competências existentes nas empresas portuguesas. Do outro lado, muitas empresas não estão suficientemente sensibilizadas para essas necessidades nem sabem como apresentar soluções concretas. Para a responsável, é necessário aproximar as duas partes e passar de uma oferta centrada nos equipamentos e nas tecnologias para propostas orientadas para os produtos e problemas que precisam de resposta. A discussão evidenciou também que esta aproximação exige uma ação concertada, envolvendo o Estado, as entidades de defesa e as empresas, bem como o cumprimento dos requisitos de certificação e homologação. Agostinho Carvalho considerou que o processo não pode depender apenas da iniciativa individual das empresas, enquanto Rodrigo Passos salientou a importância de preparar a indústria para as oportunidades que podem surgir com a crescente prioridade atribuída à defesa nos fundos europeus. Entre as áreas com potencial, apontou os moldes e as ferramentas, os dispositivos médicos, a aeronáutica e a produção de componentes especializados em pequenas séries. No balanço da mesa-redonda, ficou a ideia de que o avanço do fabrico aditivo depende menos da aquisição de equipamentos, por si só, do que da capacidade de escolher as aplicações Os participantes do Open Day 6.0 tiveram a oportunidade de visitar a unidade de fabrico aditivo da Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

20 EVENTO certas, reunir competências e integrar o processo desde a conceção. Para as empresas de moldes e plásticos, o desafio passa por transformar conhecimento técnico em soluções industriais com vantagens demonstráveis, sem perder de vista os requisitos de qualidade, os custos e a viabilidade da produção. A INDÚSTRIA PARA LÁ DA TECNOLOGIA: GESTÃO, PESSOAS E TERRITÓRIO Na parte final do Open Day, Elsa Henriques, professora e investigadora do Instituto Superior Técnico, chamou a atenção para os resultados que nem sempre são imediatamente visíveis na avaliação de um projeto de inovação. Para além dos produtos, serviços e soluções desenvolvidos, destacou a transformação das competências, das instituições científicas e da relação entre empresas e entidades de investigação. A colaboração entre estas organizações permite aproximar o conhecimento das necessidades industriais, mas o trabalho não termina com a demonstração de que uma tecnologia funciona. O desafio está em transformar esse potencial em soluções que possam ser utilizadas pela indústria e criar valor no mercado. Elsa Henriques alertou que algumas tecnologias e demonstradores ainda precisam de evoluir antes de poderem ser aplicados em condições industriais reais e com competitividade económica. Por isso, defendeu a continuidade do ecossistema de colaboração criado em torno do projeto, envolvendo empresas, universidades, centros de investigação e centros tecnológicos. A industrialização exige tempo, investimento e trabalho conjunto. André Sousa, presidente da Câmara Municipal da Batalha, destacou, por sua vez, que a inovação não depende apenas dos equipamentos ou do software disponíveis. A organização das empresas e a forma como gerem e partilham o conhecimento são igualCréditos: Joaquim Morgado, Color Shop. mente determinantes para transformar capacidades técnicas em oportunidades de negócio. “Podíamos ter a melhor máquina, o melhor software, mas se não tivermos uma boa gestão organizacional das empresas, umas boas parcerias, nunca vamos conseguir criar valor para o mercado”, afirmou. O autarca abordou ainda a dificuldade crescente em atrair profissionais com as competências de que a indústria necessita e considerou que as condições oferecidas pelo território – desde a educação à oferta cultural e desportiva – também influenciam a capacidade das empresas para recrutar e fixar trabalhadores. A competitividade industrial, disse, depende também das condições de vida de quem trabalha nas empresas. O Open Day terminou com a visita às instalações da Erofio, permitindo aos participantes conhecer de perto a realidade industrial que esteve no centro do encontro. n

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