53 PEGADA E CRÉDITOS DE CARBONO culturais, atividade pecuária, produtividade e características do solo. O Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) defende, contudo, que o objetivo não é medir tudo indiscriminadamente, mas identificar os pontos críticos onde se concentra uma parte significativa do impacto e onde a alteração das práticas pode produzir maiores ganhos. Dependendo da metodologia de cálculo, podem também ser relevantes dados sobre as condições meteorológicas e outros fatores que influenciem as emissões ou a capacidade de sequestro de carbono. Portugal já tem exemplos de empresas que fazem este trabalho, particularmente no setor vitivinícola. A Sogrape, a Symington Family Estates e a Herdade do Esporão estão entre os casos identificados pelo INIAV. Mas a realidade do setor é muito mais fragmentada: mais de 98% das unidades vitivinícolas são PME e, para muitas explorações, o problema começa antes do cálculo, na inexistência de dados organizados e recolhidos de forma sistemática. Para o INIAV, há ainda uma cautela fundamental: “o carbono é um indicador essencial, mas não é sinónimo de sustentabilidade”. Ou seja, uma prática pode reduzir emissões e, simultaneamente, aumentar a pressão sobre a água, o solo ou a biodiversidade. Avaliar a agricultura pelo carbono exige, por isso, olhar para o sistema como um todo. E esse sistema começa no solo. Em Portugal, muitos solos apresentam teores relativamente baixos de matéria orgânica, o que significa que existe margem para aumentar o armazenamento de carbono através de cobertos vegetais, incorporação de matéria orgânica, redução da mobilização, agrofloresta ou melhoria da gestão das pastagens. As vantagens podem ultrapassar o carbono: maior retenção de água, fertilidade, biodiversidade funcional e resistência a condições climáticas adversas. PORTUGAL TEM UM PATRIMÓNIO QUE NÃO PODE SER IMPORTADO É aqui que a questão deixa de ser apenas agrícola e passa a ser também científica. Se o carbono armazenado no solo vai ser medido, certificado e eventualmente remunerado, é preciso saber medi-lo nas condições portuguesas. Embora reconheça que países como a Irlanda, a França, os Países Baixos e a Dinamarca iniciaram mais cedo programas estruturados de monitorização das emissões agrícolas e valorização do carbono, o INIAV identifica uma vantagem específica de Portugal: décadas de informação sobre os solos, laboratórios de referência, ensaios de longa duração e uma diversidade de sistemas mediterrânicos que inclui montados, pastagens, agrofloresta, vinha, olival e outras culturas. A plataforma INFOSOLO, do INIAV, reúne informação georreferenciada de milhares de perfis de solo, com dados recolhidos entre 1966 e 2022. A este património juntam-se a Pedoteca, os laboratórios de referência e os ensaios de longa duração, que permitem cruzar décadas de observação com novas ferramentas de monitorização e modelação. “São décadas de observação que não podem ser reconstituídas nem adquiridas: ou existem, ou o país fica sem ponto de partida para saber como evoluem os seus solos”, sublinha o INIAV. Essa base é importante porque o potencial de sequestro varia consoante a região, o tipo de solo e o sistema produtivo. Não basta importar uma metodologia desenvolvida para outra realidade e aplicá-la indistintamente. É necessário validar soluções e desenvolver métodos adequados às condições edafoclimáticas nacionais. A medição enfrenta ainda três desafios científicos: a variabilidade entre solos e ao longo do tempo, a comparabilidade entre diferentes metodologias e a incerteza inerente às estimativas, que deve ser quantificada. É também por isso que o INIAV coloca a questão em termos que vão além Recolha da atmosfera das câmaras de respiração do solo. Foto: INIAV. Foto: INIAV.
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