55 PEGADA E CRÉDITOS DE CARBONO existir um prémio de mercado: fertilizantes, combustível, energia e água estão entre os fatores associados à pegada carbónica e representam também custos para a exploração. Melhorar a utilização destes recursos pode reduzir simultaneamente desperdícios, custos e emissões. “A pegada de carbono pode, por isso, funcionar também como um indicador de eficiência da exploração”, conclui a AgroInsider. MENOS CARBONO, MAIS PRODUTIVIDADE Esta ligação entre carbono e produtividade é também uma das ideias sublinhadas pela Consulai. Em vez de pensar na descarbonização como uma despesa adicional, a consultora defende que o caminho mais interessante pode passar por associá-la à própria capacidade produtiva do solo. A agricultura regenerativa surge neste ponto como uma possibilidade concreta. Em Portugal, onde muitos solos partem de teores baixos de matéria orgânica, aumentá-la pode contribuir simultaneamente para o armazenamento de carbono, a retenção de água, a fertilidade e a resiliência perante condições climáticas adversas. “Não se trata de sacrificar produção para armazenar carbono”, advoga a Consulai. E continua: “trata-se de reconhecer que solos com mais matéria orgânica retêm mais água, respondem melhor a anos difíceis e sustentam melhores produtividades”. A diferença é importante. Se a exploração tiver de escolher entre produzir e armazenar carbono, dificilmente o segundo objetivo prevalecerá. Se a mesma prática contribuir para produzir de forma mais eficiente e resiliente, o carbono passa a ser consequência e ativo adicional, em vez de ser o único argumento económico. TECNOLOGIA PODE BAIXAR O CUSTO DA PROVA Para tornar a medição mais acessível, a tecnologia terá um papel importante. Tanto a agricultura de precisão como satélites, sensores, máquinas agrícolas, cadernos de campo digitais e inteligência artificial podem melhorar a recolha e organização dos dados, aumentar a resolução das estimativas e reduzir o custo da monitorização. Grande parte das emissões agrícolas não é medida diretamente: é estimada a partir de dados de atividade, fatores de emissão e modelos. No sequestro de carbono, a combinação de amostras de solo, deteção remota, mapas digitais, meteorologia e modelos pode permitir acompanhar alterações com maior frequência e menor custo. Mas a digitalização não elimina a necessidade de validação científica. O INIAV identifica obstáculos práticos como a conectividade rural, o custo dos equipamentos, o acesso e a interoperabilidade dos dados e a disponibilidade de competências para os utilizar. E, para a certificação, é necessário garantir que aquilo que é calculado digitalmente corresponde ao que acontece na exploração. É essa combinação – dados mais acessíveis, ferramentas digitais, conhecimento científico e validação no terreno – que pode permitir reduzir o custo da chamada MRV, isto é, monitorização, reporte e verificação. A redução desse custo será particularmente importante para as pequenas e médias explorações, para as quais uma metodologia tecnicamente robusta mas demasiado cara pode ser, na prática, inutilizável Mais do que gerar créditos, o objetivo poderá ser outro: “o carbono deverá tornar-se progressivamente mais um indicador de gestão da exploração”, acredita a AgroInsider. E SE O PRODUTO NÃO FOR O CARBONO? É neste ponto que a discussão ganha uma dimensão ainda mais interessante. Se os créditos forem caros de medir, sujeitos a volatilidade e pouco expressivos à escala de uma exploração, pode fazer mais sentido remunerar um conjunto de benefícios ambientais. A Consulai aponta para um mercado de serviços dos ecossistemas, inspirado em modelos como o FSC (Forest Stewardship Council) na floresta: em vez de pagar apenas pela tonelada de CO2, remunerar simultaneamente carbono, água, biodiversidade, solo e paisagem. “O carbono é uma das dimensões e não o produto único”, defende a consultora. A hipótese muda a pergunta inicial. Talvez o futuro económico do carbono agrícola não esteja em transformar cada tonelada sequestrada numa mercadoria isolada, mas em reconhecer o conjunto de serviços que uma exploração presta enquanto produz alimentos. O desafio está agora em transformar o conhecimento e as ferramentas que Portugal já possui num sistema de medição, gestão e valorização acessível às explorações. Se a medição for comparável, credível e economicamente viável, o carbono poderá deixar de ser apenas uma exigência e passar a apoiar decisões, reduzir custos, aumentar a resiliência e demonstrar valor ao longo da cadeia. n Amostragem de campo feita pela equipa da AgroInsider. Foto: AgroInsider.
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