ENTREVISTA 37 A campanha de pequenos frutos de 2026 decorreu num contexto marcado por desafios climáticos e económicos. Que balanço faz, em termos de produção, qualidade, mercados e rentabilidade para os produtores? O estudo da EY-Parthenon apresentado em junho mostra que os pequenos frutos geraram 1.037 milhões de euros de VAB em Portugal, sustentaram 34.369 empregos equivalentes a tempo completo (ETC), geraram 629 milhões de euros em remunerações totais associadas à fileira, e 276 milhões de euros em receita fiscal total, em 2025. A produção nacional mais do que triplicou em dez anos, passando de 27,6 mil toneladas (2015) para 91,4 mil toneladas (2025), com um valor de produção de 580 milhões de euros, e exportações de 398 milhões de euros. Estes números mostram a dimensão que a fileira já alcançou, mas também aumentam a responsabilidade de criar condições para que este crescimento seja sustentável e para que o valor gerado continue a chegar aos produtores e aos territórios onde a produção agrícola está instalada. Ao mesmo tempo, a campanha confirma a importância de manter o foco na qualidade e na capacidade de resposta aos mercados. Mais de 95% da produção da Lusomorango é destinada à exportação, nomeadamente para mercados da Europa Central e do Norte, pelo que a competitividade dos produtores depende da capacidade de assegurar qualidade, consistência e cumprimento de requisitos cada vez mais exigentes. O ano de 2026 começou com o impacto das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram danos significativos em produções e infraestruturas agrícolas, como túneis, sistemas de rega, equipamentos essenciais e plantas, com custos superiores a dez milhões de euros e perda de 50% e 70% da capacidade produtiva dos produtores afetados. Este início de campanha veio demonstrar, de forma muito concreta, a exposição da atividade agrícola a fenómenos meteorológicos extremos e a necessidade de reforçar a capacidade de prevenção, preparação e resposta dos produtores. Para a Lusomorango, este é um dos principais ensinamentos dos últimos anos: não basta aumentar a capacidade produtiva; é necessário preparar melhor as produções para um contexto de maior incerteza climática, investir em conhecimento, tecnologia e prevenção do risco e criar condições para que os produtores possam recuperar mais rapidamente quando ocorrem fenómenos extremos. A fileira dos pequenos frutos tem sido um dos setores mais dinâmicos da agricultura portuguesa. Quais considera serem hoje os principais desafios e oportunidades para o seu crescimento, no contexto da agricultura nacional e das atuais políticas europeias? Os pequenos frutos são uma das fileiras agrícolas mais dinâmicas de Portugal e os dados apresentados pela EY-Parthenon confirmam uma evolução muito expressiva. Esta evolução resulta de uma combinação de fatores: investimento dos produtores, conhecimento técnico, inovação, condições geográficas favoráveis, organização da produção e uma forte orientação para os mercados internacionais. Mas este crescimento não pode ser dado como adquirido. Temos hoje desafios muito concretos: água, alterações climáticas, mão de obra, burocracia, infraestruturas e previsibilidade regulatória. A água é talvez o exemplo mais evidente. Sem água não existe agricultura e, por isso, é fundamental concretizar os investimentos previstos para a modernização do Perímetro de Rega do Mira e reforçar as interligações hídricas previstas para o Sudoeste Alentejano. Ao mesmo tempo, temos de continuar a investir na eficiência da utilização da água e no conhecimento. Existe também uma oportunidade clara na inovação. Portugal não tem de competir com os maiores produtores mundiais pela escala. O nosso posicionamento passa pela produção de culturas de maior valor, pela qualidade, pela diferenciação, pela inovação e pela capacidade de responder a mercados exigentes. O estudo da EY-Parthenon mostra precisamente esta diferenciação: enquanto a produção mundial e europeia continua fortemente assente no morango, Portugal apresenta uma maior especialização em framboesa, amora e mirtilo. Do ponto de vista das políticas públicas, precisamos de estabilidade, simplificação administrativa, investimento em infraestruturas, instrumentos adequados de gestão do risco e condições para que os produtores possam continuar a investir. Para 2026, projetam-se 645 milhões de euros de valor da produção, 36.702 empregos e um contributo de 298 milhões de euros para a receita fiscal nacional
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