OPINIÃO 50 Circularidade na agroindústria: quem ganha? Ana Penha, técnica especialista na Direção de Sustentabilidade e Mobilidade da ADENE – Agência para a Energia A agroindústria tem a capacidade de fechar ciclos e produz um manancial de recursos ’renováveis’. A valorização de subprodutos agrícolas e agroindustriais representa uma oportunidade real de criação de valor económico, mas muitas oportunidades circulares continuam invisíveis, inacessíveis ou adiadas. FAZ SENTIDO INVESTIR EM CIRCULARIDADE NA AGROINDÚSTRIA? Os ciclos biológicos da agricultura são uma das mais claras inspirações para o modelo da economia circular. Neste modelo económico pretende-se que os produtos, materiais e recursos se mantenham em utilização durante o máximo de tempo possível. Procura-se, de certa forma, uma semelhança aos ciclos da mãe Natureza. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, como aprendemos em tempos passados, numa mesa de escola, com a célebre lei de Lavoisier. O enfoque da circularidade é um aumento de eficiência de recursos, seja por via de uma melhor utilização (em que muitas vezes se conseguem reduções de consumo), de reutilização ou valorização. Isso faz sentido em qualquer setor, especialmente num contexto de escassez ou aumento de preços de matérias-primas ou auxiliares. A agroindústria tem a particularidade de gerar grandes quantidades de subprodutos valorizáveis - biomassa orgânica com potencial de valorização. Cascas, folhas, bagaços, soros lácteos (tão ricos em proteína) ou polpas da indústria alimentar são apenas alguns exemplos de materiais que podem voltar (e em parte já voltam) ao ciclo produtivo e criar valor, sob a forma de fertilizantes, ingredientes para alimentação, energia ou tantos outros. Ao evocar exemplos, há um marcante, pelo seu valor e pelo que se está a desperdiçar: a lã, a nobre lã, atualmente enterrada por tantos pastores ou criadores, mas que poderia ter um outro destino industrial, mais digno e útil. Tal contrasta com uma das metas do Plano de Ação para a Bioeconomia Sustentável, agora em revisão, que estabeleceu, para o setor têxtil e do vestuário, a substituição, até 2030, de 40% das fibras de origem fóssil usadas na produção, por fibras de base biológica produzidas em Portugal. Por outro lado, no ramo alimentar, é conhecido o gritante desperdício nacional ao longo da cadeia de valor (cerca de 180 quilos de alimentos por ano, por pessoa), dos valores mais elevados da Europa. Cerca de 10% diz respeito ao desperdício na produção primária ou industrial. Ora, a agroindústria tem a capacidade de fechar ciclos e produz um manancial de recursos ‘renováveis’. Por tudo isto, sim, faz todo o sentido investir em circularidade neste setor. VISÃO DA OPORTUNIDADE. QUEM GANHA? A valorização de subprodutos agrícolas e agroindustriais representa muitas vezes uma oportunidade real de criação de valor económico. Quem consegue transformar resíduos em recursos terá menor dependência externa. A própria reutilização de água ou a melhoria da eficiência energética constituem medidas de circularidade e traduzem-se numa operação industrial otimizada e com menores custos. Todas estas são
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