BP28 - InterPLAST

31 REPORTAGEM Quando, na década de 1980, Carlos Lopes e Rosa Mota conquistaram títulos olímpicos na maratona, fizeram-no com recursos técnicos significativamente mais limitados do que os disponíveis atualmente. Desde então, a evolução das ferramentas à disposição dos atletas tem sido notória – e os resultados estão à vista, com recordes a serem sucessivamente superados. Entre os elementos que mais contribuíram para este salto de desempenho destacam-se as sapatilhas de corrida, em particular as suas solas e entressolas. A evolução das tecnologias de processamento de termoplásticos permite hoje produzir conjuntos extremamente leves, confortáveis e com elevado retorno de energia. No fabrico de entressolas, falamos, concretamente, da tecnologia MuCell, patenteada pela norte-americana Trexel e comercializada em Portugal e Espanha pela Simulflow. DO MIT PARA VILA DO CONDE Desenvolvida no Massachusetts Institute of Technology (MIT), precisamente na década de 1980, a tecnologia MuCell só se popularizou na indústria a partir do ano 2000, particularmente em aplicações do ramo automóvel. O princípio fundamental desta tecnologia reside na introdução de fluidos supercríticos, como dióxido de carbono ou azoto, durante o processo de injeção de poliuretano termoplástico (TPU). A expansão controlada do gás no interior do molde cria uma estrutura microcelular que permite produzir peças mais leves e com menor consumo de material, as chamadas ‘supercritical foams’ ou 'espumas supercríticas'. Comparado com os processos de injeção tradicionais, este exige menor pressão de injeção e ciclos de produção mais curtos, com ganhos ao nível da produtividade e da eficiência energética, contribuindo simultaneamente para a redução das emissões de carbono e para um fabrico mais sustentável. Entre os fabricantes de maquinaria que têm apostado na sua integração destaca-se a FCS (Fu Chun Shin), que desde 2015 desenvolve máquinas com este sistema para aplicações em setores como o automóvel, embalagem, eletrodomésticos e equipamentos desportivos. Na Europa, o primeiro fabricante de componentes para calçado técnico a apostar na tecnologia foi a portuguesa Aloft, há cerca de seis anos. A INOVAÇÃO COMO RESPOSTA ÀS TENDÊNCIAS DO MERCADO Em entrevista à InterPlast, Ruben Duarte, diretor comercial da Aloft, explica que o investimento nesta tecnologia foi motivado, em primeiro lugar, por razões técnicas, sublinhando que esta solução permite desenvolver “sapatos muito mais avançados tecnicamente” face às tecnologias convencionais. “Estas ‘espumas supercríticas’ permitem-nos obter densidades incrivelmente baixas, o que se traduz num componente muito mais leve, com elevada performance”, acrescenta. Além disso, “do ponto de vista estratégico torna-se mais atrativo apostar em soluções com potencial diferenciador do que em tecnologias já amplamente disseminadas”. A sustentabilidade teve também um peso relevante, já que se trata de um processo “extremamente eficiente” e compatível com materiais 100% recicláveis. O responsável destaca ainda Princípio de funcionamento da tecnologia MuCell. Imagem: FCS (Fu Chun Shin). Fundada em 2013, a Aloft resulta da vasta experiência de Pedro Castro, atual CEO, na área dos componentes técnicos. Depois de uma primeira fase apenas dedicado ao desenvolvimento de produto, rapidamente percebeu que ter uma fábrica era decisivo para conseguir chegar ao resultado final que pretendia. Juntamente com Albano Fernandes e Domingos Almeida, adquiriram uma unidade industrial pré-existente em Canidelo (Vila do Conde) e equiparam-na com máquinas e tecnologias de última geração. Atualmente, a empresa fatura 14 milhões de euros, emprega 170 pessoas e exporta cerca de 90% da produção para países como a Alemanha, França, Itália e Holanda. Pedro Castro, CEO da Aloft.

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